Lipofacelift: plástica facial com descolamento mínimo da pele
INTRODUÇÃO
No decurso das ritidoplastias, quer nas dissecações amplas e mesmo nas econômicas1-8 combinadas ou não com o tratamento do SMAS9-12, a lipoaspiração em determinadas áreas da face e do pescoço e as injeções de gordura têm sido rotineiramente utilizadas e descritas na literatura13-20.
Temos realizado ritidoplastias faciais desde 1978, desde então temos passado por todas etapas possíveis desse tipo de procedimento. Iniciamos com a ritidoplastia superficial e, em seguida, com a execução de plicaturas, das lipectomias do terço médio da face e pescoço, e por último a inclusão do tratamento do SMAS. Nos últimos 10 anos, temos utilizado rotineiramente os procedimentos propostos, isto é, dissecações cutâneas reduzidas e tunelização com cânula (com ou sem lipoaspiração) das áreas restantes da face e pescoço. O objetivo desse artigo é apresentar os detalhes técnicos dessa conduta, as vantagens e os resultados a médio e longo prazos.
METODO
Foram operados e avaliados 309 pacientes, com idade entre 37 e 87 anos, sendo 90% do sexo feminino. Quanto ao grupo étnico, 3% dos pacientes pertenciam à 97% eram caucasianos e o restante eram negros ou mestiços. Trinta por cento dos pacientes operados eram tabagistas ou ex-tabagistas. Os últimos 89 pacientes foram submetidos à técnica proposta.
Técnica
A cirurgia foi realizada com os pacientes sedados, sob anestesia local. A demarcação envolveu as áreas limites, desde a região malar até o hióide e a retroauricular bilateralmente. Foi realizada infiltração com xilocaína a 0,125% e com adrenalina a 1:200.000 (Figura 1). Todas as regiões contidas nas áreas demarcadas e infiltradas foram tunelizadas com cânula tipo "cabeça de tubarão"(Figura 2), com ou sem lipoaspiração concomitante (Figuras 3 e 4). A dissecação da pele foi realizada ao redor da orelha, numa área com cerca de 4 cm de raio (Figura 5). A plicatura do SMAS foi realizada com pontos isolados de náilon 3-0, com o nó voltado para o plano profundo, paralelamente ao sulco naso-geniano (SNG), iniciando no segmento lateral do malar até atingir a região cervical infra-auricular, passando pouco adiante do lóbulo da orelha (Figura 6). A tração dos excessos cutâneos foi realizada na direção e no sentido dos vetores de força, um no sentido superior e o outro póstero-superior na linha tragus - tubérculo de Darwin7 (Figura 7). Após bloqueio dos retalhos dérmicos em dois pontos com náilon 4-0, nas zonas pré e retroariculares, o excesso de pele foi ressecado sem tensão e a síntese da pele por sutura intradérmica com monocryl® 4-0. Foram realizados auto-enxertos de gordura nas regiões malar, lábios e ângulo da mandíbula, quando indicados (Figura 8). Curativo compressivo foi dispensável.

Figura 1 - Todas as áreas demarcadas são submetidas à tunelização romba com a cânula em toda a extensão.

Figura 2 - Cânula tipo "cabeça de tubarão" com 2 mm de diâmetro e dois orifícios na extremidade achatada.

Figura 3 - Detalhes dos aspectos da tunelização romba com a cânula em todas as regiões previamente delimitadas sem aspiração da gordura, acima e abaixo da linha da mandíbula.

Figura 4 - Os depósitos específicos de gordura são aspirados, previamente à tunelização romba com cânula nas demais regiões demarcadas.

Figura 5 - Somente uma área de até 4 cm de raio ao redor da implantação da orelha é dissecada para permitir a plicatura do SMAS e a tração e ressecção dos excessos de pele.

Figura 6 - Aspecto esquemático e detalhes da plicatura do SMAS segundo uma linha paralela ao sulco naso-geniano (SNG), estendida até a região cervical abaixo do lóbulo da orelha. Pontos isolados de náilon 3-0 são aplicados em toda a extensão do SMAS, com os nós posicionados no plano subjacente.

Figura 7 - Detalhe sobre o sentido de tração sem tensão dos excessos cutâneos a serem ressecados e a diminuição do espaço dissecado em até cerca de 50% da extensão prévia após a plicatura do SMAS.

Figura 8 - Áreas demarcadas em azul demonstram a lipoaspiração seletiva na região submentoniana, submandibular e no triângulo entre a borda anterior do esternocleidomastoídeo e a linha mandibular anterior.
RESULTADOS
Os casos realizados com a técnica proposta demonstraram resultados estéticos superiores às demais técnicas quanto à textura da pele pós-lifting, de aspecto normal e eutrófica.
O tempo de recuperação é consideravelmente menor e, depois de poucas horas do pós-operatório, o paciente encontra-se em condições ótimas para ter alta hospitalar.
Os pacientes operados praticamente não apresentaram hematomas, e apenas mínima perda superficial de pele retroauricular, sem necessidade de reparação cirúrgica secundária.
DISCUSSÃO
A principal proposta da técnica descrita é a não dissecação da pele além dos limites de 4 cm ao redor e distante da implantação da orelha externa. Essa dissecação econômica preserva a qualidade da pele comparada às ritidoplastias extensas que levam a processos atróficos comumente observados nas ritidoplastias secundárias e terciárias. As trabéculas persistentes após a tunelização da pele mostram as conexões vásculo-nervosas íntegras (Figura 9). A pele apresenta ampla mobilização à tração, similar à observada nas dissecações mais extensas.

Figura 9 - Detalhe dos aspectos dos túneis e trabéculas com preservação vascular (seta branca) após a tunelização dermo-epidérmica e a dissecação de rotina com a tesoura.
Na técnica apresentada nesse artigo, a lipoaspiração dos excessos adiposos localizados e generalizados na face e no pescoço é seletiva e fiel aos preceitos de manter o volume facial, da mesma forma, o reimplante da gordura aspirada tem sua indicação específica. A reduzida área dissecada torna desnecessário o uso de drenos, com incidência zero de hematomas nos casos operados. O período de pós-operatório com edemas e equimoses também foi reduzido comparativamente às ritidoplastias convencionais, permitindo o retorno às atividades habituais e sociais precocemente. Para atividades desportivas e exposição ao sol, mantivemos o período de repouso de 3 meses. Os procedimentos cirúrgicos, como blefaroplastias, rinoplastias, e o tratamento das bandas platismais por incisão submandibular podem ser realizados no decurso da cirurgia, pela baixa morbidade, já que o tempo cirúrgico é reduzido em torno de 50% quando comparado às ritidoplastias convencionais.
Finalmente a chamada "face estigmatizada", às vezes observada nas ritidoplastias convencionais por dissecação e trações excessivas, não tem foi observada nos casos operados (Figuras 10 a 13).

Figura 10 - Paciente sob sedação e anestesia local com 8 horas de pós-operatório, submetida a rinoplastia, blefaroplastia, tratamento das bandas de platisma, lipoinjeção dos lábios, ressecção intrapilosa na região frontal para elevação da cauda dos supercílios, e aos procedimentos de ritidoplastia combinada com tunelização pela técnica descrita. Apesar da extensão dos procedimentos combinados, nota-se pequeno a moderado volume de edema e equimoses, sem a utilização de drenos e curativo oclusivo somente nas primeiras 6 horas de pós-operatório.

Figura 11 - Paciente do sexo masculino, 70 anos, submetido aos procedimentos técnicos descritos. Vista anterior, perfil e semi-lateral do pré-operatório, 8 e 16 meses de pós-operatório.

Figura 12 - Paciente do sexo feminino, 53 anos, submetida aos procedimentos técnicos descritos. Vista anterior, perfil e semi-lateral do pré-operatório e 6 meses de pós-operatório.

Figura 13 - Paciente do sexo feminino, 57 anos, submetida aos procedimentos técnicos descritos. Vista anterior, perfil e semi-lateral do pré-operatório e 6 meses de pós-operatório.
CONCLUSÕES
A "Lipofacelift" tem oferecido resultados mais naturais, com maior margem de segurança na manipulação da capa cutânea, tempo de recuperação pós-operatório mais curto e tempo cirúrgico reduzido a 50%, quando comparado às técnicas de ritidoplastias convencionais. O fato da técnica dispensar o uso de drenos e de curativos na maioria dos casos, com intercorrências e índice de complicações próximos a zero, completam os aspectos positivos observados nos nossos casos nos últimos 10 anos.
REFERÊNCIAS
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1. Diretor do Capítulo de Cirurgia Plástica do Colégio Brasileiro de Cirurgiões; Chefe do Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital da Lagoa.
Trabalho realizado na Interclínica - Centroplástica, Rio de Janeiro, RJ.
Trabalho apresentado: ASAPS Meeting, em abril de 2006, em Orlando, Estados Unidos; Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica, em novembro de 2007; Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica, em novembro de 2008; Jornada de Santa Catarina, em abril 2009; no Hospital Mater-Dei, Belo Horizonte, MG, em 2007 e 2009; na Jornada de Búzios, em 2008 e 2009.
Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBCP.
Correspondência para:
Marcelo Daher
Rua Jardim Botânico, 164 - Jardim Botânico
Rio de Janeiro, RJ, Brasil - CEP 22461-000
E-mail: mdaher@attglobal.net
Artigo recebido: 19/7/2009
Artigo aceito: 23/10/2009