Original Article - Year 2026 - Volume 41Issue 1
Retalho do músculo latíssimo do dorso toracolateral (LDTL): Uma nova opção para a reconstrução autóloga da mama
Latissimus Dorsi Thoracolateral Flap: A New Option for Total Autologous Breast Reconstruction
RESUMO
Introdução A mastectomia para o tratamento do câncer de mama provoca grande impacto psicológico, e a reconstruçãomamária é fundamental. As técnicas com expansores e implantes se popularizaram pelo fácil acesso, mas podem apresentar complicações como contratura capsular, infecção e ruptura. Em contrapartida, as reconstruções autólogas oferecem naturalidade, consistência e durabilidade. O retalho miocutâneo do músculo latíssimo do dorso, descrito por Tansini e difundido na década de 1970, evoluiu com modificações técnicas e o uso de lipoenxertia, o que possibilita o seu emprego isolado. Em 2016, foi proposta uma variação: o retalho do músculo latíssimo do dorso toracolateral (LDTL), que expandiu as indicações para a reconstrução total da mama. Este estudo descreve as suas características, a técnica cirúrgica e os resultados clínicos.
Materiais e Métodos Trata-se de estudo descritivo, baseado na revisão de prontuários de pacientes submetidas à reconstrução como retalho LDTL no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) entre 2017 e 2023.
Resultados Ao todo, foram operadas 95 pacientes, com idade média de 43,5 anos e índice de massa corporal (IMC) médio de 32,8 kg/m2. A reconstrução tardia foi realizada em 70% dos casos. As principais indicações foram contratura capsular recidivante, infecção ou ruptura de implantes e impossibilidade de uso de retalhos abdominais. A lipoenxertia foi aplicada em 16% das pacientes. Complicações, incluindo seroma, deiscência e epidermólise, ocorreram em 11 casos.
Conclusão O retalho LDTL demonstrou ser alternativa eficaz e segura para a reconstrução mamária, especialmente em situações de falhas reconstrutivas ou complicações associadas a materiais aloplásticos, de modo que se configura como técnica versátil e de resgate.
Palavras-chave: neoplasias da mama; mamoplastia; retalho miocutâneo; retalhos cirúrgicos; anatomia
ABSTRACT
Introduction Mastectomy for breast cancer has a significant psychological impact, making breast reconstruction an essential component of comprehensive care. Techniques using tissue expanders and implants have become widely adopted due to their accessibility; however, they may be associated with complications such as capsular contracture, infection, and implant rupture. In contrast, autologous reconstruction provides greater naturalness, consistency, and long-term durability. The latissimus dorsi musculocutaneous flap, first described by Tansini and popularized in the 1970s, has evolved through technical modifications and the incorporation of fat grafting, enabling its use as a standalone method. The thoracolateral latissimus dorsi (TLLD) flap was introduced in 2016. The current study describes its anatomical characteristics, surgical technique, and clinical outcomes.
Materials and Methods The present descriptive study was based on a review of medical records and a prospective database of patients who underwent breast reconstruction with the TLLD flap at Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) between 2017 and 2023.
Results In total, 95 patients underwent surgery, with a mean age of 43.5 years and a mean body mass index (BMI) of 32.8 kg/m2. Delayed reconstruction was performed in 70% of the cases. The main indications were recurrent capsular contracture, implant infection or rupture, and contraindication to abdominal flaps. Fat grafting was performed in 16% of the patients. Complications, including seroma, wound dehiscence, and epidermolysis, occurred in 11 cases.
Conclusion The LDTL flap proved to be an effective and safe alternative for breast reconstruction, particularly in cases of previous reconstructive failure or complications related to alloplastic materials, establishing itself as a versatile salvage technique.
Keywords: breast neoplasms; mammaplasty; surgical flaps; myocutaneous flap; anatomy
Introdução
O impacto psicológico causado pela perda da mama na saúde mental das mulheres submetidas ao tratamento do câncer de mama é inestimável. A reconstrução mamária faz parte do tratamento integral do câncer mamário, e traz benefícios físicos e psicológicos.
O advento das técnicas de reconstrução com materiais aloplásticos propiciou a popularização e o acesso de muitas mulheres à reconstrução. Em que pese a evolução tecnoló-gica no desenvolvimento de expansores e implantes, a reconstrução com esses materiais pode apresentar proble-mas que podem comprometer a qualidade de vida das pacientes, como contratura capsular, ruptura, infecção e perda do resultado estético.
As reconstruções autólogas apresentam diversas vanta-gens, como naturalidade, consistência e manutenção do resultado em longo prazo. Diversos estudos que comparam as reconstruções autólogas com aloplásticos mostram vantagens relativas ao uso de retalhos no que tange à qualidade de vida e à manutenção do resultado.
Descrito por Tansini,1 o retalho miocutâneo do músculo latíssimo do dorso teve seu uso popularizado na década de 1970, associado ao uso de implantes para aumento de volume. Algumas modificações no desenho, na técnica de dissecção e no uso de enxertos de gordura possibilitaram a reconstrução do volume mamário com a aplicação do retalho do isoladamente, sem a necessidade do uso de implantes.
Em 2016 em nossa instituição, Arruda propôs uma modificação no desenho do retalho que abarcava a porção cutânea situada anteriormente à borda anterior do músculo. O novo desenho ampliou as indicações para a reconstrução total da mama. O novo retalho foi chamado de LDTL, pela junção do retalho toracolateral com o latíssimo do dorso.
Objetivo
O objetivo deste presente estudo é descrever as característi-cas anatômicas do retalho LDTL, os detalhes técnicos da dissecção cirúrgica, as complicações e as principais indicações.
Métodos
Trata-se de estudo descritivo com revisão dos dados coleta-dos do de um banco de dados mantido de forma prospectiva e dos prontuários médicos das pacientes operadas pela técnica do retalho LDTL no Instituto do câncer do estado de São Paulo (ICESP) entre 2017 e 2023.
Desenho do retalho
Com a paciente em posição ortostática, são marcados os pontos de referência: borda inferior da escápula, linha axilar posterior e espinha ilíaca posterossuperior. O eixo do retalho é a projeção do sulco mamário. A porção cutânea se estende desde a linha média dorsal até a linha média mamária, de acordo com a indicação do caso. Realiza-se o teste do pinçamento tecidual bidigital para determinar a largura da área cutânea do retalho (►Fig. 1).
Técnica de dissecção
Com a paciente em decúbito lateral, realiza-se a infiltração com solução anestésica e adrenalina na concentração de 1:100 mil em toda área a ser incisada. A dissecção do retalho se inicia pela porção superior no plano acima do músculo, e pela confecção de um túnel subcutâneo até a mama, quando necessário. A porção localizada anteriormente à borda do músculo latíssimo do dorso é dissecada no plano subfascial. A dissecção segue no sentido distal até que se obtenha tecido muscular o suficiente, dependendo da necessidade de cada caso. Após a secção da porção distal, a dissecção procede na face profunda do músculo até a região do pedículo vascular. Após a ligadura do ramo do músculo serrátil anterior, o pedículo principal é isolado, e é realizada a secção do nervo toracodorsal. Procede-se à liberação da inserção umeral e à rotação do retalho para a região mamária (►Figs. 2-3). A montagem é realizada com suturas absorvíveis. A área doadora é fechada com o auxílio de pontos de adesão com VICRYL 2-0 (Ethicon Inc.). Um dreno de Blake no 15 (Ethicon Inc.) é colocado na mama reconstruída e no túnel axilar. A porção tendínea do músculo é fixada na parede torácica lateral para proteger o pedículo vascular (►Fig. 4).
Resultados
Entre 2017 e 2023, foram operadas com esta técnica 95 pacientes com idade média de 43,5 (variação: 34-75) anos (43,5 anos de média), e índice de massa corporal (IMC) médio de 32,8 (variação: 22,5-34,2) kg/m2; Ao todo, 12 pacientes eram tabagistas, e 83, não tabagistas, e 75% apresentavam alguma comorbidade, como hipertensão arterial, diabetes, hipotireoidismo e alterações cardíacas.
A maioria das reconstruções foram realizadas na moda-lidade tardia (70%), ao passo que 30% foram realizadas no ato da mastectomia. As principais indicações para a técnica foram contratura capsular recidivante, infecção de expansor/implante, ruptura, desejo de troca do método de reconstrução, falha terapêutica de outro retalho autólogo e comorbidades que impossibilitassem o uso de retalho abdo-minal, como obesidade mórbida.
A lipoenxertia do retalho foi realizada em 16% (15) dos pacientes, e variou de volume entre 90 e 200 mL; a área desepitelizada foi total em 54 (56%), e parcial em 41 (44%) pacientes. As dimensões do retalho variaram de 22 a 49 cm de comprimento por 8 a 18 cm de largura.
Ao todo, 11 pacientes apresentaram complicações, entre elas seroma na área doadora,2 epidermólise,3 deiscência de ferida operatória,2 infecção de ferida operatória,1 sofrimento vascular,3 sendo uma congestão venosa e um sofrimento com necrose parcial (4 x2 cm).
Discussão
Apesar da descrição no início do século XX,1,3 o retalho do músculo latíssimo do dorso só foi popularizado para a reconstrução mamária por Bostwick et al.2 em 1978. Desde então, diversas modificações foram descritas, e ampliaram as suas indicações.
Sua anatomia constante e vascularização robusta permi-tem sua aplicação em diversos cenários da reconstrução mamária e torácica. Pode ser utilizado como retalho muscu-lar, musculocutâneo ou osteomiocutâneo.
Após a descrição inicial na reconstrução mamária, diversos autores propuseram modificações com o objetivo de aumen-tar as dimensões e o volume do retalho. Em 1987, Hokin e Silfverskiold4 propuseram a inclusão da fáscia lombar; Em 1996, Germann e Steinau5 propuseram a inclusão da fáscia e da gordura escapular. Em 1998, Papp e McCraw6 descreveram o aumento da porção cutânea com uma incisão em âncora. Em 1995, Angrigiani et al.7 apresentaram o retalho perfurante da artéria toracodorsal estendido com a inclusão das fáscias escapulares e lombares. Em 2012, Tame e Ledo8 descreveram o retalho dorsoepigástrico, que ampliou os limites da porção cutânea e, ao mesmo tempo, reduziu a porção muscular utilizada. Em 2019, Koonce et al.9 incluíram a angiografia com indocianina verde, e descreveram áreas de vasculariza-ção da porção cutânea. Em 1996, Barnett e Gianoutsos10 relataram o uso do enxerto de gordura para aumento volu-métrico, o que dispensou o uso de implantes.
A modificação do desenho proposta abrange a região toracolateral, e abarca a porção cutânea do retalho toracolateral (Holmström e Lossin, 1986).11 A extensão da porção muscular é variável, e depende da necessidade de cada paciente. A porção tendínea localizada próximo à espinha ilíaca posterior não deve ser incluída, pois, além da menor vascularização, não é bom leito receptor de gordura e aumenta o risco de ocorrência de hérnias lombares.12 Asso-ciado ao aumento de volume do retalho, podemos citar que a mobilização do tecido da região lateral pode melhorar o contorno corporal da região em pacientes obesas ou porta-doras de excesso de pele e gordura.
As dimensões da porção cutânea, o volume do coxim gorduroso e a possibilidade de lipoenxertia permitiram a realização de reconstruções totalmente autólogas, que atin-gem resultados naturais e com simetria mamária. As indi-cações para o retalho incluem tanto reconstruções imediatas quanto tardias, nas quais são necessários volume e/ou cober-tura cutânea. Entre as cirurgias realizadas, 36 pacientes foram submetidas a retirada do expansor ou prótese com a substituição pelo retalho devido a processo infeccioso, rup-tura, exposição ou contratura capsular. As contraindicações são as mesmas do retalho tradicional do latíssimo dorso, que incluem cirurgias torácicas com incisões prévias na topogra-fia do retalho e ligaduras prévias do pedículo vascular.
Entre as vantagens do retalho LDTL, podemos citar dis-secção rápida, facilidade técnica, o fato de se evitar um procedimento microcirúrgico, o volume do retalho e a redu-ção da morbidade da área doadora, quando comparada à dos retalhos abdominais pediculados. A principal desvantagem é a presença de cicatriz na região dorsal, mas que é linear e na altura do sutiã, conforme o desenho do retalho. Outras desvantagens, como diminuição de força do ombro e atrofia do retalho, já estão bem estabelecidas na literatura.
Um grupo que merece destaque é o das pacientes porta-doras de obesidade mórbida, que, por conta de característi-cas particulares, como o volume e ptose mamária e grande pressão intra-abdominal, são candidatas ruins para as reconstruções tanto com aloplásticos quanto com retalhos abdominais. A aplicação do retalho possibilita a reconstrução total de mamas volumosas e ptóticas sem os riscos de hérnias abdominais ou complicações relacionadas ao uso de aloplásticos.
Neste estudo, as taxas de complicação foram de 32%, entre complicações menores, epidermólise, deiscências (somente uma ressutura com anestesia local), infecção de ferida ope-ratória, seroma de área doadora (8%), e complicações maiores como sofrimento vascular (5%), sendo que nenhum retalho apresentou perda total. Estes dados estão de acordo com trabalhos anteriormente publicados, que relatam taxas até 34,9%.
De acordo com Pirro et al. (2017),13 pacientes submetidas a reconstrução mamária com tecido autólogo apresentam maior satisfação com o resultado das mamas do que com aloplásticos após a aplicação do teste BREAST-Q, devido a um resultado mais duradouro e previsível, melhores resultados em casos complexos e/ou submetidos a radioterapia, e e por estarem livres do fator de risco para linfoma anaplásico de células grandes (anaplastic large cell lymphoma, ALCL, em inglês).
Conclusão
O retalho LDTL é uma opção para reconstruções mamárias autólogas imediatas ou tardias. Representa uma nova opção de resgate da reconstrução em pacientes com perdas prévias, infecção por aloplásticos e contratura capsular recidivante.
REFERENCES
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13. Pirro O, Mestak O, Vindigni V, et al. Comparison of Patient-reported Outcomes after Implant Versus Autologous Tissue Breast Reconstruction Using the BREAST-Q. Plast Reconstr Surg Glob Open 2017;5(01):e1217. Doi: 10.1097/GOX.0000000000001217
1. Grupo de Reconstrução Mamária, Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, São
Paulo, SP, Brasil
2. Clínica Privada, São Paulo, SP, Brasil
3. Disciplina de Cirurgia Plástica, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
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Article received: March 20, 2025.
Article accepted: December 15, 2025.
Editor-chefe: Dov Charles Goldenberg.
Conflito de Interesses
Os autores não têm conflito de interesses a declarar.











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