Case Report - Year 2026 - Volume 41Issue 1
Retalhos perfurantes bilaterais da artéria glútea superior (AGS) para reconstrução glútea total após hidradenite supurativa extensa
Bilateral Superior Gluteal Artery Perforator (SGAP) Flaps for Total Gluteal Reconstruction After Extensive Hidradenitis Suppurativa
RESUMO
A hidradenite supurativa (HS) é uma doença inflamatória crônica e recorrente que acomete áreas com glândulas apócrinas e, com frequência, provoca extensos defeitos glúteos após a ampla excisão cirúrgica. Há diversas abordagens cirúrgicas, incluindo fechamento primário, cicatrização por segunda intenção, retalhos locais e enxerto de pele, mas nenhum método isolado é um padrão-ouro definitivo. Retalhos locais podem ser inadequados em defeitos extensos, enquanto enxertos de pele são propensos à contratura, com possível comprometimento dos resultados funcionais e estéticos. Retalhos perfurantes, com pedículos longos e amplos arcos de rotação, são uma alternativa confiável, permitindo a reconstrução de defeitos extensos sem causar contratura, limitar a amplitude de movimento ou gerar frouxidão na área doadora; além disso, seus resultados estéticos são excelentes e o tempo de recuperação pós-operatória é curto. Apresentamos aqui o caso de um homem de 48 anos com histórico de HS glútea há 8 anos que foi submetido à excisão ampla, o que levou ao desenvolvimento de um defeito de 32x14 cm. Retalhos perfurantes bilaterais da artéria glútea superior (AGS) foram utilizados com sucesso, permitindo que o paciente retornasse às atividades sociais precocemente e demonstrasse excelentes resultados funcionais e estéticos aos 5 anos de acompanhamento. Este caso corrobora o uso de retalhos perfurantes como uma opção reconstrutiva segura e eficaz para defeitos glúteos extensos decorrentes da HS.
Palavras-chave: hidradenite supurativa; AGS; retalho perfurante; reconstrução glútea
ABSTRACT
Hidradenitis suppurativa (HS) is a chronic, recurrent inflammatory disease affecting apocrine gland-bearing areas, often leading to extensive gluteal defects after wide surgical excision. Various surgical approaches exist, including primary closure, secondary intention healing, local flaps, and skin grafting, but no single method serves as the definitive gold standard. Local flaps may be inadequate for large defects, while skin grafts are prone to contracture, potentially compromising functional and esthetic outcomes. Perforator flaps, with long pedicles and wide rotational arcs, provide a reliable alternative, allowing reconstruction of extensive defects without causing contracture, limiting range of motion, or resulting in donor site laxity, while achieving excellent cosmetic outcomes and a short postoperative recovery time. Here,we present the case of a 48-year-oldmalewith an 8-year history of gluteal HS,who underwent wide excision resulting in a defect measuring 32x14 cm. Bilateral superior gluteal artery perforator (SGAP) flapswere used successfully, with the patient returning to social activities early and demonstrating excellent functional and esthetic outcomes at 5-year follow-up. The case presently reported supports perforator flaps as a safe and effective reconstructive option for large gluteal defects in HS.
Keywords: hidradenitis suppurativa; SGAP; perforator flap; gluteal reconstruction
Introdução
A hidradenite supurativa (HS), também conhecida como acne inversa, é uma doença inflamatória crônica e recorrente do folículo piloso que afeta principalmente as áreas com glân-dulas apócrinas. A HS tende a acometer as regiões glútea, perineal, axilar e inguinal.1 Apresenta-se com nódulos pro-fundos e crônicos, trajetos fistulosos, fístulas e abscessos, que podem causar dor, mobilidade reduzida, comprometimento funcional e significativo ônus físico e psicossocial, reduzindo, assim, a qualidade de vida.2 Segundo a literatura, a preva-lência da HS varia de 0,05 a 4,1% e a doença é mais comum em mulheres. Como a etiologia e a patogênese da HS são multifatoriais, seu tratamento é complexo.3 As estratégias de tratamento da HS compreendem abordagens médicas e cirúrgicas. O tratamento médico inclui antibióticos tópicos e sistêmicos, corticosteroides intralesionais e sistêmicos, tera-pia hormonal e agentes imunomoduladores, enquanto as opções cirúrgicas vão desde a drenagem parcial da lesão até a excisão radical do tecido acometido.4 Dentre as opções cirúrgicas para tratamento da HS, estão incisão e drenagem de abscessos agudos, abertura do teto dos trajetos fistulosos, excisão limitada ou localizada do tecido doente, excisão ampla das áreas afetadas e excisão radical nos casos com comprometimento extenso.5 Dependendo do tamanho e da localização do defeito, a reconstrução após a excisão cirúr-gica pode ser realizada por fechamento primário, cicatriza-ção por segunda intenção e uso de retalhos cutâneos.6 A HS é comum na região glútea e, em casos avançados, a excisão geralmente provoca defeitos substanciais que representam desafios funcionais e estéticos. Nessas situações, a utilização de retalhos perfurantes é uma opção reconstrutiva confiável e vantajosa.
Apresentação do Caso
Um paciente do sexo masculino, de 48 anos, apresentou-se com histórico de 8 anos de HS, que havia se agravado significativamente nos últimos 18 meses. O paciente havia recebido terapia antibiótica combinada com rifampicina e clindamicina sob a supervisão de um dermatologista, sem melhora clínica.
O exame físico revelou lesões bilaterais extensas nas regiões glúteas e sacrais, caracterizadas por fístulas, absces-sos dispersos e secreção com odor desagradável (►Fig. 1). Após a excisão local ampla, o defeito resultante media aproximadamente 32 x 14 cm (►Fig. 2). A reconstrução foi realizada com retalhos bilaterais perfurantes da artéria glútea superior (AGS), elevados do plano subfascial. Os pedículos foram meticulosamente liberados em pelo menos 2 cm da fáscia circundante e os retalhos foram transpostos para cobrir o defeito sem tensão ou torção do pedículo. As áreas doadoras foram submetidas ao fechamento primário (►Fig. 3).
O período pós-operatório transcorreu sem intercorrências ou complicações como deiscência da ferida ou congestão venosa. Os drenos foram removidos no sexto dia pós-opera-tório e o paciente recebeu alta hospitalar. Após 5 anos de acompanhamento, o paciente apresentou excelentes resul-tados funcionais e estéticos, sem recidiva da HS (►Fig. 4). Os retalhos continuaram totalmente viáveis e o paciente era capaz de realizar todas as atividades diárias sem limitações.
Discussão
Diversas técnicas cirúrgicas têm sido descritas para o trata-mento da HS; no entanto, nenhuma abordagem isolada se consolidou como o padrão-ouro definitivo. De acordo com Gierek et al., os retalhos locais são considerados o padrão-ouro para o tratamento cirúrgico da HS; contudo, frequente-mente são inadequados para cobrir defeitos extensos resul-tantes de excisões amplas.7 Sugio et al. relataram que os enxertos de pele podem proporcionar cobertura superior em comparação aos retalhos em alguns casos; porém, são pro-pensos à contratura, o que pode comprometer os resultados funcionais e estéticos.8 O fechamento primário ainda é o método mais simples e rápido de cobertura de defeitos. Dietrich et al. demonstraram que retalhos perfurantes, como os retalhos perfurante da artéria toracodorsal e da artéria torácica lateral, podem ser usados para reconstrução axilar em pacientes com HS sem causar contratura, compro-meter a amplitude de movimento ou gerar frouxidão, além de alcançar resultados estéticos excelentes.9 Segundo Unal et al. (2011), a cicatrização por segunda intenção e o enxerto de pele na região glútea podem prolongar o retorno dos pacientes às atividades diárias e sociais e, muitas vezes, são procedimentos demorados. Os retalhos perfurantes, por outro lado, oferecem pedículos longos e um amplo arco de rotação, tornando-os bastante adequados para a reconstru-ção de defeitos glúteos extensos.10 No tratamento cirúrgico da HS, os retalhos perfurantes oferecem resultados estéticos superiores, permitem um curto período de recuperação pós-operatória e podem ser utilizados de maneira eficaz para a reconstrução de defeitos extensos, sem causar contraturas ou comprometer a amplitude de movimento.11,12 Em nosso caso, um defeito glúteo extenso resultante de uma ampla excisão para tratamento da HS foi reconstruído com sucesso utilizando retalhos perfurantes bilaterais da artéria glútea superior (AGS), permitindo que o paciente retornasse logo às atividades sociais e alcançando excelentes resultados fun-cionais e estéticos. Isso corrobora o uso de retalhos perfu-rantes como uma opção confiável para grandes defeitos glúteos em casos semelhantes.
Conclusão
Os retalhos perfurantes bilaterais da AGS são uma opção reconstrutiva confiável e eficaz para defeitos glúteos exten-sos resultantes da excisão ampla para tratamento da HS. Em nosso caso, o uso destes retalhos permitiu a cobertura completa do defeito, preservou a amplitude de movimento, preveniu contraturas e gerou excelentes resultados estéticos.
O paciente pôde retornar logo às atividades sociais, demons-trando as vantagens funcionais e estéticas dos retalhos per-furantes no tratamento das lesões extensas causadas pela HS na região glútea. Este caso corrobora o uso amplo de retalhos perfurantes como uma técnica segura, versátil e reprodutível para reconstrução glútea extensa em casos de HS.
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1. Departamento de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética, Muğla Sıtkı Koçman
University Faculty of Medicine, Muğla, Turquia
Endereço para correspondência Şükrü Kasap, Muğla Eğitim ve Araştırma Hastanesi, Kötekli, Marmaris Yolu No:48, 48000 Menteşe/Muğla, Turkey (e-mail: drsukrukasap@gmail.com).
Article received: November 06, 2025.
Article accepted: December 16, 2025.
Editor-chefe: Dov Charles Goldenberg.
Conflito de Interesses
Os autores não têm conflito de interesses relevantes declarar.











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