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Artigo Original - Ano 2008 - Volume 23 - Número 3

ABSTRACT

Introduction: Plastic Surgery academic league (LBCP) of the medical school of Federal University of Bahia (UFBA) is an academic league with no financial interests. Objective: The aim of this study is evaluate the main positive and negative points of LBCP, member's satisfaction and knowledge after one year. Method: The questioner applied to the members analyzed, by the end of the year, the main LBCP events during May 2006 and July 2007. They were: weekly lectures, activities in plastic surgery clinics at Universitary Hospital, Brazilian Plastic Surgery Society - Regional Bahia meetings, surgical instrumentation of plastic surgeries, events organization and scientific development. Results: The percentage of student interested in acting as plastic surgeon grew from 28.6% to 78.6%. Satisfaction and improvement of knowledge ranged 84% and 78%. Conclusion: Academic leagues are powerful instruments for graduates insertion in scientific and medical activities. They bring real contact and knowledge, demystifying unknown aspects of the specialty.

Keywords: Medicine. Surgery, plastic/education. Education, medical, undergraduate/methods. Career choice.

RESUMO

Introdução: A Liga Baiana de Cirurgia Plástica (LBCP) da Faculdade de Medicina da Bahia da Universidade Federal da Bahia é uma liga acadêmica sem fins lucrativos, fundada em maio de 2006 com a finalidade de aproximar graduandos à especialidade médica de Cirurgia Plástica. Objetivo: O presente estudo pretende avaliar os pontos positivos e negativos, o grau de satisfação e aprendizado dos membros após um ano de implantação da LBCP. Método: Foram analisadas, por meio de questionário aplicado aos membros no final do ano letivo, todas as atividades realizadas pela LBCP, no período de maio de 2006 a julho de 2007. As atividades foram: reuniões semanais com aulas sobre os principais assuntos em cirurgia plástica, atendimento ambulatorial e instrumentação cirúrgica no Hospital Universitário, reuniões da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica - Regional Bahia, organização de eventos e elaboração de trabalhos científicos. Resultados: A taxa de alunos que se interessavam pela especialidade era 28,6% antes da liga, evoluindo para 78,6%. As taxas de satisfação e aprendizado após 1 ano de LBCP foram de 84% e 78%, respectivamente. Conclusão: As ligas acadêmicas são instrumentos de forte poder para inserção na atividade médica e científica, propiciam melhor contato e conhecimento da especialidade, desmistificando assuntos outrora desconhecidos.

Palavras-chave: Medicina. Cirurgia plástica/educação. Educação de graduação em medicina/métodos. Escolha da profissão.


INTRODUÇÃO

As Ligas Acadêmicas são entidades formadas por grupos de alunos de diferentes anos da graduação sob a supervisão de profissionais e professores vinculados a Instituição de Ensino Superior ou Hospitais de Ensino. Participam de forma efetiva na educação médica, promovendo conhecimento e atuação em áreas específicas não contempladas pelos currículos tradicionais, permitindo aproximação do estudante com as especialidades. Os princípios básicos que regem estas entidades são atividades de pesquisa, ensino e assistência.

A Liga Baiana de Cirurgia Plástica da UFBA (LBCP), entidade sem fins lucrativos, em seu primeiro ano (2006) composta por vinte e cinco membros (quinze membros da graduação, três residentes e sete professores ou médicos assistentes da Faculdade de Medicina da UFBA), tem como finalidade proporcionar aproximação entre graduandos e a cirurgia plástica, uma vez que a maioria dos estudantes desconhece muitos dos campos de atuação desta especialidade, tais como: queimaduras, cirurgia crânio-maxilo-facial, cirurgia de mão e cuidados de ferimentos complexos; bastante freqüentes na prática médica. Desta forma, além do ensino da especialidade, são oferecidas aos alunos oportunidades científicas e assistenciais. O acesso à LBCP é realizado por meio de processo seletivo (prova e entrevista) após curso introdutório realizado anualmente1.

O objetivo deste estudo foi avaliar os pontos positivos e negativos da LBCP e a satisfação e aprendizado dos acadêmicos integrantes após um ano de implantação.


MÉTODO

Foram analisadas, por meio de questionário aplicado aos membros no final do período letivo, todas as atividades realizadas pela LBCP, no período de maio de 2006 a julho de 2007.

As atividades realizadas foram: reuniões semanais, com aula expositiva sobre assuntos em cirurgia plástica ministrada por professor ou médico assistente da Faculdade de Medicina da UFBA (conselho consultivo), seguida de reunião administrativa; atendimentos sob supervisão no ambulatório do Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital das Clínicas da UFBA; participação no Curso de Residentes da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica - Regional Bahia; instrumentação de cirurgias plásticas realizadas no Hospital das Clínicas da UFBA; organização do simpósio da LBCP e do II Curso Introdutório da LBCP; e elaboração e apresentação de trabalhos científicos (12 apresentados e 4 publicados).

O questionário aplicado aos membros da liga foi composto por sete perguntas objetivas para avaliação da LBCP quanto a organização, atuação dos professores, atuação dos residentes, grau de aprendizado do corpo discente, quantificação da satisfação dos alunos em relação às atividades realizadas pela Liga, avaliação do rendimento dos membros em graduação, identificação dos principais pontos positivos e negativos e verificação do grau de interesse de cada componente em relação à cirurgia plástica, previamente e após um ano em contato com a especialidade.

O questionário foi entregue a cada membro do corpo discente no final do período letivo, com o prazo de uma semana para preenchimento e devolução. Dos quinze membros, quatorze responderam ao questionário no prazo estabelecido. Para quantificação das avaliações foi utilizada escala numérica simples com valores de um a dez. Os questionários foram avaliados individualmente e foi realizada a média ponderada das notas das atividades desenvolvidas. Os resultados foram analisados através do software Statistical Package for Social Science (SPSS) versão 12.0 e aplicado o teste não-paramétrico de McNemar.


RESULTADOS

O primeiro item abordado foi o interesse em atuar na área de cirurgia plástica futuramente, antes e após um ano de LBCP: dos quatorze membros, 71,4% não tinham interesse na área cirúrgica quando iniciaram a Liga e 28,6% o tinham (Figura 1). Ao final de um ano, obteve-se uma inversão dos valores, sendo que 78,6% dos alunos passaram a se interessar em atuar futuramente como cirurgião plástico, enquanto 21,4% não o fariam (Figura 2). Esses dados foram estatisticamente significantes considerando-se p< 0,05 (Tabela 1).


Figura 1 - Porcentagem de alunos com interesse em atuar futuramente em cirurgia plástica ao entrar na LBCP.


Figura 2 - Porcentagem de alunos com interesse em atuar futuramente em Cirurgia Plástica após 1 ano de LBCP.




O segundo item avaliou as atividades internas da LBCP. Dentre as atividades da liga, as que mais satisfizeram os acadêmicos foram: o II Curso Introdutório da LBCP (média de 9,1); o I Simpósio da LBCP (média de 8,8) e as atividades ambulatoriais (média de 8,5). Seguindo em ordem decrescente vieram: as reuniões da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Regional Bahia, as aulas expositivas e as atividades em centro cirúrgico com médias de 8,3, 8,1 e 8,0, respectivamente. A menor média foi atribuída às reuniões administrativas semanais (média 7,8). Os demais itens avaliados foram a atuação dos preceptores, que alcançou média de 9,7, e a criatividade científica do conselho consultivo, com média de 8,4 .

O grau de satisfação e aprendizado dos membros acadêmicos após um ano da formação da LBCP foram os outros pontos avaliados, obtendo-se as médias de 84% e 78%, respectivamente (Figura 3).


Figura 3 - Porcentagem de alunos satisfeitos e que consideraram o aprendizado adequado após 1 ano de LBCP.



Por fim, o questionário e a entrevista apontaram pontos positivos e negativos. Dentre os pontos negativos citados pelos membros destacaram-se: sobrecarga das atividades curriculares causadas pelas atividades extracurriculares e as faltas nas atividades curriculares. Dentre os pontos positivos, os mais prevalentes foram: vivência próxima com a prática da cirurgia plástica e seu melhor conhecimento, incentivo à produção científica, desenvoltura da habilidade em apresentar trabalhos em público, o aprendizado da organização de eventos e o aprimoramento do trabalho em grupo.


DISCUSSÃO

As ligas acadêmicas são instrumentos de inclusão ou afastamento dos estudantes no meio em que escolheram para sua atuação futura. Questiona-se porém se estas não seriam uma superespecialização precoce de graduandos que deveriam estar aprendendo generalidades.

A banalização e o descrédito da cirurgia plástica, em muito explorado pela mídia, é um fenômeno que vem crescendo nos últimos anos de forma global. A visão da cirurgia plástica como vinculada apenas à estética ocorre até mesmo entre os estudantes de medicina, que desconhecem as diversas áreas de atuação desta especialidade, como citam Parikh et al.2, Burd et al.3 e McGrouther4.

Prater e Smith5 e Porter et al.6 defendem a importância da cirurgia plástica no currículo da graduação, visto que algumas patologias como feridas complexas (freqüentes em pacientes diabéticos e com grande prevalência na população mundial), o tratamento de queimados e a correção de imperfeições congênitas podem contribuir para a qualidade de vida dos pacientes. Em 2005, Ek et al.7 provaram em seu estudo que as experiências de ensino dos estudantes da graduação podem influenciar bastante sua escolha profissional futura, e a falta de contato com algumas especialidades, como a cirurgia plástica, pode afastar os estudantes de determinadas especialidades8.

A LBCP procurou proporcionar aos membros variadas atividades na especialidade Cirurgia Plástica, como aulas expositivas, reuniões, simpósios, apresentação de trabalhos em simpósios e congressos, atividade em ambulatório e aprendizado de técnicas cirúrgicas que apresentou elevados escores e pequena variação na pontuação atribuída (7,8 e 9,1 pontos). Ampliou os conhecimentos e o interesse do estudante em relação às áreas de atuação da cirurgia plástica, como se pode observar nas Figuras 1 e 2 (interesse em seguir a especialidade). A LBCP desenvolveu, ainda, atividades de ensino com um alto grau de aprendizado (78%) e pesquisa, este último item citado como ponto positivo em 100% dos questionários. Permitiu a participação dos acadêmicos em atividades assistenciais, com atendimento e acompanhamento ambulatorial dos pacientes, observando a atuação médica do cirurgião plástico. A satisfação e, portanto, aprovação dos acadêmicos alcançou 84%, fortalecendo a necessidade de continuidade da Liga.

A relevância da liga está agregada ao fato de promover a aproximação dos estudantes à concepção base de uma universidade: ensino, pesquisa e extensão. Além disso, os inserem dentro de um tema de grande interesse, em um ambiente construído e conduzido por eles próprios sob orientação. Isso torna possível uma grande aquisição de aprendizado e experiência, desenvolvimento de raciocínio clínico-científico, ampliação do conhecimento sobre a cirurgia plástica, ao mesmo tempo em que se promove uma maior interação com a comunidade. Vale ressaltar que as habilidades adquiridas poderão ser adaptadas a outras áreas de atuação dentro da medicina9.


CONCLUSÃO

A LBCP, reiterando o conceito de liga acadêmica, foi capaz de inserir o estudante de forma satisfatória num contexto ampliado de medicina em torno da cirurgia plástica, proporcionando maior conhecimento e interesse por essa área de atuação médica, desmistificando valores negativos outrora agregados e, em adição, possibilitou a capacitação de seus membros, por meio do aprendizado e aquisição de experiência sob diversos aspectos, com destaque para atividades em pesquisa. A longo prazo, estes acadêmicos (líderes de comunidade e formadores de opinião em suas diversas especia-lidades) contribuirão para o adequado conhecimento da especialidade médica Cirurgia Plástica.


REFERÊNCIAS

1. Departamento científico FMUSP. Disponível em: http://www.dcfmusp.com.br/ligas/Ligas%20-%20Geral.htm Acesso em:10/02/2008

2. Parikh AR, Clarke A, Butler PE. Plastic surgery and the undergraduate medical school curriculum. Med Educ. 2006;40(5):476-7.

3. Burd A, Chiu T, McNaught C. Plastic surgery in the undergraduate curriculum: the importance of considering students' perceptions. Br J Plast Surg. 2004;57(8):773-9.

4. McGrouther DA. All doctors need plastic surgery. Br J Hosp Med. 1993;49(2):137.

5. Prater MA, Smith DJ Jr. Determining undergraduate curriculum content in plastic surgery. Plast Reconstr Surg. 1989;84(3):529-33.

6. Porter JM, Rayner CR, Fenton OM. Teaching plastic surgery to medical students. Med Educ. 1992;26(1):42-7.

7. Ek EW, Ek ET, Mackay SD. Undergraduate experience of surgical teaching and its influence on career choice. ANZ J Surg. 2005; 75(8):713-8.

8. Bremner N, Davies M, Waterston S. Experience of plastic surgery as an undergraduate: vital for the future of the specialty! J Plast Reconstr Aesthet Surg. 2008;61(2):235-6.

9. Mafra S. Ligas acadêmicas idéia é fortalecer o tripé ensino-pesquisa-extensão para construção do conhecimento. Rev CRESMESP Ano II - Nº 7 - Jun/Jul/Ago/2006. Disponível em: http://revista.cremesp.org.br/07/diretoriosacademicos.php. 2006. Acesso em: 10/02/2008.










I. Presidente da Liga Baiana de Cirurgia Plástica e acadêmica da FMB/UFBA.
II. Professor Doutor da Disciplina de Cirurgia Plástica da Faculdade de Medicina da Bahia da Universidade Federal da Bahia - Coordenador do Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital Universitário Prof. Edgard Santos da UFBA, Membro Titular da SBCP.
III. Diretor Científico da Liga Baiana de Cirurgia Plástica e acadêmico da FMB/UFBA.
IV. Residente do Serviço de Cirurgia Plástica do HUPES/UFBA.
V. Professor Adjunto e Chefe da Disciplina de Cirurgia Plástica da FMB/UFBA.

Correspondência para:
Marcelo Sacramento Cunha
Rua João das Botas, 89 - Apto 601- Canela
Salvador - BA - CEP: 40110-160
Tel (71) 3328-4884
E-mail:cunha.ms@pop.com.br

Trabalho realizado na Faculdade de Medicina da Bahia da Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA.
Trabalho apresentado no XXVII Congresso Brasileiro de Cirurgia - Belo Horizonte - MG, em julho de 2007.

Artigo recebido: 08/06/2008 Artigo aceito: 22/09/2008

 

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