ISSN Online: 2177-1235 | ISSN Impresso: 1983-5175

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Artigo Original - Ano 2011 - Volume 26 - Número 3

RESUMO

Introdução: A hipertrofia dos pequenos lábios traz problemas estéticos e de comprometimento do comportamento íntimo e social. As técnicas existentes, via de regra, propõem excisão do excesso de tecido e reaproximação das bordas; entretanto, diferenças anatômicas são comuns e, frequentemente, observa-se hipertrofia do prepúcio do clitóris associada a aumento dos pequenos lábios. Essas alterações, se não tratadas adequadamente, limitam o resultado, podendo produzir sequelas estéticas e funcionais. Este trabalho propõe uma classificação dos tipos de hipertrofia, com tratamento diferenciado para cada um deles, além de refinamentos técnicos na abordagem da hipertrofia dos pequenos lábios. Métodos: Estudo retrospectivo de 20 casos de plástica genital feminina, realizada no Centro de Cirurgia Plástica de Brasília e Hospital das Forças Armadas, no período de junho de 1999 a março de 2008. As pacientes foram classificadas em três grupos, de acordo com o grau e a localização da hipertrofia dos pequenos lábios. Resultados: As pacientes mostraram-se muito satisfeitas com o aspecto estético proporcionado pela cirurgia. Não foram verificadas complicações relacionadas aos procedimentos realizados. Todas as pacientes foram submetidas a tratamento cirúrgico dos pequenos lábios de acordo com o protocolo proposto pelos autores, baseado no tipo de hipertrofia. Conclusões: Os procedimentos cirúrgicos realizados, propostos de acordo com a classificação da hipertrofia dos pequenos lábios, permitiram a obtenção de resultados estéticos e funcionais satisfatórios, proporcionando à paciente oportunidade de redução do excesso dos pequenos lábios e do prepúcio do clitóris, sem criar estigmas cirúrgicos ou diminuição da sensibilidade, não prejudicando, portanto, a função sexual.

Palavras-chave: Vulva/cirurgia. Clitóris/cirurgia. Procedimentos cirúrgicos em ginecologia/métodos.

ABSTRACT

Background: Hypertrophy of the labia minora is a functional and esthetic problem that can have a significant impact on quality of life. Current surgical procedures are based on the excision of excess tissue and reconnection of the edges. However, anatomical alterations associated with labial hypertrophy such as hypertrophy of the foreskin of the clitoris are common, and, if not treated properly, may limit the results of surgery and cause esthetic and functional sequelae. The present report proposes a classification of the different types of hypertrophy and recommended treatments, and describes refinements in the labia minora reduction techniques. Methods: A total of 20 female genital plastic surgery cases from the Center for Plastic Surgery of Brasilia and at Hospital das Forças Armadas from June 1999 to March 2008 were retrospectively reviewed. Patients were classified into three groups according to the degree and location of labia minora hypertrophy. Results: The patients were satisfied with the esthetic results of surgery. No complications were reported, and all patients underwent surgery of the labia minora in accordance with the protocol proposed by the authors and based on hypertrophy type. Conclusions: The surgical procedures reviewed in this study were based on the classification of labia minora hypertrophy. Satisfactory esthetic and functional results were obtained, thus providing new methods for the surgical reduction of labia minora and foreskin of the clitoris without surgical stigma or reduction of sensitivity and no effects on sexual function.

Keywords: Vulva/surgery. Clitoris/surgery. Gynecologic surgical procedures/methods.


INTRODUÇÃO

Alterações anatômicas dos pequenos lábios podem trazer desconforto funcional e estético, interferindo na higiene pessoal, no uso de roupas mais justas, no transcurso sexual e na vaidade feminina1-11.

As hipertrofias podem ser congênitas ou adquiridas por irritação crônica, aumento exagerado de peso ou ação hormonal (androgênica), endógena ou exógena1-3.

Não existe uma definição anatômica sobre o tamanho apropriado dos pequenos lábios, mas há, como padrão da normalidade, o conceito de que os pequenos lábios devem estar cobertos pelos grandes lábios, os quais devem confluir superiormente e recobrir parcialmente o clitóris, quando a paciente é vista em posição anatômica , isto é, com as pernas aduzidas.

Nos dias atuais, com a maior exposição do corpo feminino em revistas, cinema, internet, etc., as mulheres puderam perceber diferenças naturais existentes na anatomia genital externa e fazer comparações, identificando um modelo estético mais agradável às ninfas e aos grandes lábios.

O culto ao corpo associado à melhora da autoestima feminina são fatores importantes na obtenção de satisfação pessoal2-6, quando as pacientes buscam o auxílio da cirurgia plástica para melhorar o contorno corporal. Isso tem, de certa forma, servido como fator adjuvante na maior procura por esse tipo de cirurgia atualmente.

O receio das pacientes em realizar a cirurgia nessa região anatômica reside na possibilidade de restarem estigmas cirúrgicos, como cicatrizes e alterações anatômicas, ou, ainda, de haver diminuição da sensibilidade e dispareunia5-7. Portanto, não se deve menosprezar o procedimento da plástica genital ou classificá-la simplesmente como uma ressecção elíptica dos excessos. Os cirurgiões devem estar atentos para as diferenças anatômicas de cada indivíduo, e procurar adequação cirúrgica de cada caso5-8.

Durante o desenvolvimento desse trabalho, foi constatada a ausência de uma classificação que descrevesse os excessos e as alterações tão comuns nas pacientes. Dessa forma, o presente trabalho visa a propor uma classificação das variações anatômicas mais comuns dos pequenos lábios, e demonstrar uma tática cirúrgica para abordagem das ninfas em cada caso e seus respectivos refinamentos técnicos.


MÉTODO

Estudo retrospectivo de 20 casos de plástica genital feminina, realizada no Centro de Cirurgia Plástica de Brasília e Hospital das Forças Armadas, no período de junho de 1999 a março de 2008. A idade das pacientes variou de 27 a 55 anos. As pacientes foram classificadas em três grupos, de acordo com o grau e a localização da hipertrofia dos pequenos lábios:

  • tipo I - excesso de pele em região posterior/inferior, adjacente ao introito vaginal (Figura 1);



  • Figura 1 - Representação esquemática do tipo I de hipertrofia de pequenos lábios.



  • tipo II - excesso de pele que se estende laterosuperiormente ao clitóris (Figura 2); e



  • Figura 2 - Representação esquemática do tipo II de hipertrofia de pequenos lábios.



  • tipo III - excesso de pele em toda a área, incluindo o prepúcio do clitóris (Figura 3).



  • Figura 3 - Representação esquemática do tipo III de hipertrofia de pequenos lábios.



    Todas as pacientes foram submetidas a tratamento cirúrgico dos pequenos lábios de acordo com o protocolo proposto pelos autores, baseado no tipo de hipertrofia.

    A ressecção do excesso dos pequenos lábios foi feita em um plano inclinado medialmente (mais internamente, no introito vaginal), proporcionando uma cicatriz final mais interna e menos aparente. A hemostasia foi realizada com bisturi de alta frequência e a sutura contínua, tipo chuleio, foi feita com fio Caprofyl® 5-0 (poliglecaprone 25/Ethicon).

    Todas as pacientes foram operadas pela mesma equipe cirúrgica, sendo 15 sob bloqueio peridural e 5 sob anestesia local e sedação. As pacientes foram colocadas na posição de litotomia e mantidas em regime de internação por período de 6 a 24 horas, dependendo do tipo de anestesia e da associação a outros procedimentos (cirurgias associadas). Próximo à área operada, não foi realizado nenhum outro procedimento.

    No período pós-operatório, as pacientes foram submetidas a repouso relativo, uso de compressas geladas nas primeiras horas e antisséptico local (Andolba® spray), por duas semanas.

    Foi utilizada antibioticoterapia (cefazolina 1 g, via intravenosa, uma dose na indução anestésica e depois a cada 8 horas nas primeiras 24 horas, e cefadroxila 500 mg, via oral, a cada 12 horas por cinco dias) e associado anti-inflamatório não-esteroide (Tilatil® 20 mg, via oral, a cada 12 horas, por cinco dias), sendo também recomendada abstinência sexual por três semanas.

    As pacientes foram acompanhadas em regime ambulatorial, por pelo menos seis meses, aferindo-se o resultado, objetivamente, quanto ao aspecto anatômico obtido e, subjetivamente, por meio de perguntas sobre o grau de satisfação das pacientes e a interferência no ato sexual, utilizando-se o seguinte questionário:




    O estudo foi aprovado pelo comitê de ética do Centro de Cirurgia Plástica de Brasília (CIRPLÁS).


    RESULTADOS

    As pacientes mostraram-se muito satisfeitas com o aspecto estético proporcionado pela cirurgia, e não referiram qualquer interferência negativa no ato sexual, havendo, inclusive, relato de melhora da sexualidade.

    O aspecto anatômico obtido com a operação foi considerado bom, e não se verificou qualquer estigma cirúrgico (Figuras 4 a 9).


    Figura 4 - Caso clínico: alteração tipo I.


    Figura 5 - Caso clínico: alteração tipo II.


    Figura 6 - Caso clínico: alteração tipo III.


    Figura 7 - Pós-operatório de paciente portadora de hipertrofia de pequenos lábios tipo I.


    Figura 8 - Pós-operatório de paciente portadora de hipertrofia de pequenos lábios tipo II.


    Figura 9 - Pós-operatório de paciente portadora de hipertrofia de pequenos lábios tipo III.



    Não foram verificadas complicações relacionadas aos procedimentos realizados.


    DISCUSSÃO

    A elevada média de idade com que essas pacientes procuram o procedimento cirúrgico demonstra a clara maturidade sexual, a melhor informação e a busca por melhor imagem corporal que as pacientes dessa faixa etária apresentam. Com os refinamentos técnicos, a divulgação de bons resultados e a quebra de tabus, espera-se que maior número de pacientes procure esse tipo de cirurgia em idade mais precoce.

    O pequeno número de publicações a esse respeito denota o pouco interesse do especialista por essas alterações; além disso, presenciou-se uma visão restrita em sua abordagem, incluindo apenas a ressecção simples dos excessos.

    A classificação dos tipos de hipertrofia dos pequenos lábios e seus respectivos tratamentos proporciona melhores resultados estéticos. Neste trabalho é proposta uma nova forma de abordagem dos excessos da região do clitóris, com excisão do prepúcio contígua à excisão dos pequenos lábios, mas quebrada, obtendo-se redução do prepúcio com naturalidade, sem provocar amputações ou perda de sensibilidade. Neste estudo, procurou-se deixar as cicatrizes na porção mais interior do introito vaginal, por meio da ressecção mais interna do excesso da região vulvar, e, com tratamento adequado, foi obtida melhor harmonização da região.

    As cirurgias foram realizadas preferencialmente sob anestesia peridural, para melhor conforto da paciente e do cirurgião, já que a área é muito sensível à dor e o tecido é frouxo, e, por isso, deforma-se facilmente com a infiltração anestésica, prejudicando a avaliação anatômica. Esse conforto é importante para obtenção de melhor hemostasia e para a síntese das incisões, evitando-se as principais complicações previsíveis, como erro na quantidade de área ressecada, hematoma, deiscência da ferida e bordos mal aproximados.

    O uso de anti-inflamatório não-hormonal está indicado pela alta incidência de edema e hipersensibilidade local, características dessa região.

    Com essa estratégia, foi obtido grande índice de satisfação das pacientes, nos aspectos estético e funcional, o que também resume a opinião dos autores, principalmente na readequação morfológica da vulva nas pacientes operadas.


    CONCLUSÃO

    A cirurgia estética da genitália externa feminina deve ser abordada com seriedade e esmero, por se tratar de área de forte impacto emocional.

    Novas táticas e refinamentos cirúrgicos estão surgindo, e este trabalho vem colaborar com esse progresso.

    Os procedimentos cirúrgicos realizados, propostos de acordo com a classificação da hipertrofia dos pequenos lábios, permitiram a obtenção de resultados estéticos e funcionais satisfatórios, proporcionando à paciente oportunidade de redução do excesso dos pequenos lábios e do prepúcio do clitóris, sem criar estigmas cirúrgicos ou diminuição da sensibilidade, não prejudicando, portanto, a função sexual.


    REFERÊNCIAS

    1. Hodgkinson DJ, Hait G. Aesthetic vaginal labioplasty. Plast Reconstr Surg. 1984;74(3):414-6.

    2. Alter GJ. A new technique for aesthetic labia minora reduction. Ann Plast Surg. 1998;40(3):287-90.

    3. Alter GJ. Central wedge nymphectomy with a 90-degree Z-plasty for aesthetic reduction of the labia minora. Plast Reconstr Surg. 2005;115(7):2144-5.

    4. Rouzier R, Louis-Sylvestre C, Paniel BJ, Haddad B. Hypertrophy of labia minora: experience with 163 reductions. Am J Obstet Gynecol. 2000;182(1 pt 1):35-40.

    5. Choi HY, Kim KT. A new method for aesthetic reduction of labia minora (the deepithelialized reduction of labioplasty). Plast Reconstr Surg. 2000;105(1):419-22.

    6. Munhoz AM, Filassi JR, Ricci MD, Aldrighi C, Correia LD, Aldrighi JM, et al. Aesthetic labia minora reduction with inferior wedge resection and superior pedicle flap reconstruction. Plast Reconstr Surg. 2006;118(5):1237-47.

    7. Maas SM, Hage JJ. Functional and aesthetic labia minora reduction. Plast Reconstr Surg. 2000;105(4):1453-6.

    8. Giraldo F, González C, de Haro F. Central wedge nymphectomy with a 90-degree Z-plasty for aesthetic reduction of the labia minora. Plast Reconstr Surg. 2004;113(6):1820-5.

    9. Girling VR, Salisbury M, Ersek RA. Vaginal labioplasty. Plast Reconstr Surg. 2005;115(6):1792-3.

    10. Radman HM. Hypertrophy of the labia minora. Obstet Gynecol. 1976;48(1 Suppl):78S-9S.

    11. Kato K, Kondo A, Gotoh M, Tanaka J, Saitoh M, Namiki Y. Hypertrophy of labia minora in myelodysplastic women. Labioplasty to ease clean intermittent catheterization. Urology. 1998;31(4):294-9.










    1. Cirurgião plástico, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), diretor clínico do Centro de Cirurgia Plástica de Brasília (CIRPLÁS), Brasília, DF, Brasil.
    2. Cirurgião plástico, membro titular da SBCP, cirurgião plástico da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, Brasília, DF, Brasil.
    3. Cirurgiã plástica, membro titular da SBCP, Brasília, DF, Brasil.
    4. Cirurgiã plástica, membro titular da SBCP, cirurgiã plástica do Hospital das Forças Armadas, Brasília, DF, Brasil.
    5. Especialista em cirurgia plástica, cirurgião plástico da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, Brasília, DF, Brasil.

    Correspondência para:
    Fábio Inácio da Cunha
    SHLS 716 - Bloco C - 1o andar - Asa Sul
    Brasília, DF, Brasil - CEP 70390-904
    E-mail: fabiocunha@brturbo.com.br

    Artigo submetido pelo SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBCP.
    Artigo recebido: 19/5/2011
    Artigo aceito: 29/7/2011

    Trabalho realizado no Hospital das Forças Armadas e no Centro de Cirurgia Plástica de Brasília (CIRPLÁS), Brasília, DF, Brasil.

     

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