ISSN 2177-1235
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Vol. 20 nº 2 - Abr/Mai/Jun de 2005

 

Artigo Original Páginas 108 a 111

Uso do Cianoacrilato no Fechamento Cutâneo das Queiloplastias Primárias

Autores: Tatiana Martins CaloiI, Luiz Carlos Manganello-SouzaII

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Descritores: Adesivos teciduais. Cianoacrilatos. Técnicas de sutura. Fenda labial. Fissura palatina

RESUMO:
Este trabalho mostra a experiência dos autores com o uso do N-Butil- Cianoacrilato no fechamento cutâneo de queiloplastias primárias em fissuras unilaterais, observando os resultados estéticos em relação à sutura de mononylon 6.0. Entre abril de 1999 e dezembro de 2003, 62 queiloplastias primárias foram realizadas no Hospital Municipal Infantil Menino de Jesus, utilizando-se a técnica de rotação e avanço de Millard. No grupo A, composto por 35 pacientes, a pele foi suturada com fio de mononylon 6.0. No grupo B, com 27 pacientes, a pele foi aproximada com o adesivo N-Butil-Cianoacrilato. Os grupos foram avaliados no pós-operatório 1, 7, 30 e 90 dias após a cirurgia. Não houve casos de infecção cirúrgica. Um (3,4%) paciente do grupo B apresentou deiscência no mesmo dia da cirurgia, necessitando de sutura convencional. Uma (2,8%) criança do grupo A necessitou de anestesia geral para a retirada da sutura. Os resultados estéticos das cicatrizes foram semelhantes nos dois grupos estudados. Os autores destacam as vantagens da otimização deste adesivo na população pediátrica, que incluem facilidade e simplicidade no uso, baixo custo, utilização do tempo do profissional, diminuição do tempo cirúrgico e, principalmente, a desnecessidade de remoção das suturas, diminuindo assim o estresse da criança e dos familiares no retorno pós-operatório.

INTRODUÇÃO

Os cianoacrilatos são monômeros que quando em contato com fluidos ou tecidos se polimerizam, levando à adesão tecidual. Estudos comprovam que o N-Butil-Cianoacrilato tem baixa toxicidade tecidual, mantém boa força tênsil e tem propriedades bactericidas e bacteriostáticas1-3. Sua segurança já foi comprovada em mais de vinte anos de uso clínico, sendo a primeira escolha no tratamento de lacerações cutâneas traumáticas, em crianças em diversos centros pediátricos americanos e europeus4-8.

Os resultados estéticos a longo prazo mostraram-se semelhantes à sutura convencional em estudos comparativos prospectivos9,10. Recentemente, seu uso estendeu-se para o fechamento de feridas cirúrgicas eletivas não tensas, com bons resultados e baixa morbidade11-15.

Este estudo tem como objetivo descrever os resultados clínicos obtidos com o fechamento cutâneo da queiloplastia primária unilateral, com o adesivo N-Butil-N-Cianoacrilato e com a sutura convencional com mononylon 6.0.


MÉTODO

Entre abril de 1999 e novembro de 2003, 62 crianças foram submetidas a queiloplastia primária unilateral pela técnica de rotação e avanço de Millard, no Hospital Municipal Infantil Menino de Jesus - São Paulo. As cirurgias foram realizadas pelo assistente da Disciplina de Cirurgia Plástica e pelos residentes sob sua supervisão.

Os planos da mucosa oral, vermelhão e assoalho nasal foram fechados com poliglactina 910 (vicryl) 5.0 e o plano muscular com mononylon 5.0. Os pacientes foram divididos em grupo A (n=35), em que a pele foi suturada com mononylon 6.0 e grupo B (n=27), no qual a pele foi aproximada com o adesivo N-Butil- Cianoacrilato (Hystoacryl Blue - Laboratório B. Braun). A utilização da cola foi determinada pela disponibilidade do produto no dia da operação, não importando a amplitude da fissura labial ou a presença de fissura palatina associada.

A Figura 1 mostra a distribuição dos pacientes dos grupos A e B quanto ao tipo de fissura. A idade média na época da cirurgia foi de 1 ano e 2 meses (3m a 7a 6m) e 1 ano e 2 meses (3m a 7 a 9m) para os grupos A e B, respectivamente. O seguimento pós-operatório foi de 2 anos para o grupo A e de 2 anos e 7 meses para o grupo B.


Figura 1 - Incidência das fissuras nos grupos A e B.



No grupo B, após a aproximação das bordas cutâneas com fios de reparo, uma pequena quantidade do adesivo foi colocada sobre a incisão cutânea (Figuras 2 a 5). O produto não deve penetrar na ferida e não há necessidade de aplicação em camadas. Em casos de aplicação inadequada, o adesivo pode ser removido e reaplicado.


Figura 2 - Caso 1 : Pré-operatório de fissura pré-forame unilateral em criança de 5 meses de idade.


Figura 3 - Caso 1 : Coaptação das bordas cutâneas com fios de reparo e aplicação do N-Butil-Cianoacrilato.


Figura 4 - Caso 1 : pós-operatório imediato.


Figura 5 - Caso 1 : Pós-operatório 18 meses.



Em todos os casos, a incisão foi deixada exposta no dia seguinte à cirurgia. A sutura foi retirada com 7 dias e o adesivo descamou naturalmente após 5 a 7 dias.

Nas 62 queiloplastias foram observados os seguintes aspectos no pós-operatório de 1 dia e 7 dias: infecção (secreção purulenta) e deiscência. No pós-operatório de 30 e 90 dias, observamos a qualidade da cicatriz resultante, classificando-as subjetivamente em alargada, avermelhada e aumentada.


RESULTADOS

Nenhum paciente apresentou infecção pós-cirúrgica. Um (3,5%) caso de deiscência de ferida operatória foi verificado no grupo B, no mesmo dia da cirurgia, sendo necessária sutura com mononylon 6.0. A causa foi atribuída à aplicação incorreta do adesivo, aliada à tensão excessiva da pele. No grupo A, uma (2,6%) criança necessitou de anestesia geral para a retirada da sutura. Os resultados estéticos das cicatrizes foram semelhantes nos dois grupos a partir dos critérios observados anteriormente (Figuras 2 a 7).


Figura 6 - Caso 2 : Pré-operatório de fissura transforame unilateral em criança com 11 meses de idade.


Figura 7 - Caso 2 : Pós-operatório 12 meses com o uso do cianoacrilato.



DISCUSSÃO

A fissura lábio-palatina é uma afecção complexa e multidisciplinar. É muito importante a compreensão da interferência dos procedimentos cirúrgicos no desenvolvimento psicológico do paciente. Na retirada da sutura, a contenção da criança muitas vezes é necessária e, não raro, uma nova anestesia geral. A maior vantagem do uso do adesivo cutâneo é a possibilidade de evitar esse trauma, uma das razões que faz com que seja a primeira opção na reparação de lacerações cutâneas em grandes centros pediátricos pelo mundo4-8.

Estudos com o uso do N-Butil-2-Cianoacrilato, no setor de emergência pediátrica, mostram que os familiares percebem um menor sofrimento de seus filhos (aplicação indolor e desnecessidade de retirada de sutura) e recomendariam mais este produto para outros pais do que a sutura convencional8,10. A maioria dos centros evita o seu uso em áreas de muita mobilidade, juntas, lesões muito tensas e contaminadas, bem como feridas maiores que 4 ou 5 cm4,6,7,9. Além das restrições anteriores, Bruns et al.8 não utilizam adesivos em áreas como lábios, nariz, orelhas, mãos, pés e períneo.

Bowen e Selinger13 realizaram um estudo comparativo do uso do N-Butil-2-Cianoacrilato e suturas com vicryl no fechamento de episiotomias e demonstraram que com o uso do adesivo houve uma diminuição significativa da dor pós-operatória à deambulação e um retorno mais precoce à atividade sexual.

Howell et al.3, em estudos com modelos animais, demonstraram menor crescimento bacteriano nas incisões fechadas com N-Butil-2-Cianoacrilato, quando comparadas à sutura convencional, além de um efeito bacteriostático contra Staphylococcus aureus3. Quinn et al.2 confirmam estas propriedades bacteriostáticas e bactericidas, mostrando também o isolamento da ferida operatória do meio externo, diminuindo sua contaminação no pós-operatório.

Os índices de infecção pós-operatória e deiscência mostram-se baixos nas diversas casuísticas, demonstrando a segurança e baixa morbidade do uso dos adesivos cutâneos4-15. A maioria das complicações relatadas, como a vermelhidão na cicatriz, infecções e deiscências, provavelmente é inerente aos próprios procedimentos cirúrgicos, e não à utilização específica do adesivo12.

Os resultados estéticos a curto e longo prazo são excelentes na maioria dos trabalhos4-8,11,12, dados confirmados em alguns estudos prospectivos comparativos com suturas convencionais9,10.

Na prática clínica, muitos pacientes com fissura lábiopalatina não se beneficiam com o uso da cola devido à presunção do seu alto custo, principalmente porque são os hospitais públicos que mais tratam destes pacientes. Messi et al.5 demonstraram a possibilidade de reutilização do produto por até 12 vezes, desde que a ponta do aplicador seja cortada após cada uso. A adaptação de uma agulha à ponta do aplicador e a troca da mesma após o uso também tornam o reaproveitamento seguro. A durabilidade da cola é longa (dias) se guardada sob refrigeração. Isso faz do N-Butil-2- Cianoacrilato um método mais barato do que a sutura cutânea com fio de nylon convencional5,10,12. Além disso, este produto tem um aplicador com ponta delicada e precisa, razão pela qual foi escolhido para esta pesquisa.

Como conclusão, a utilização do N-Butil-2-Cianoacrilato no fechamento cutâneo de queiloplastias primárias provou ser um método seguro, simples e mais barato que a sutura com mononylon, apresentando resultados estéticos semelhantes aos da sutura convencional, baixa morbidade, possível diminuição na dor pós-operatória e, principalmente, a desnecessidade de retirada, evitando trauma e estresse para a criança, seus familiares e o profissional.


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I. Médica Cirurgiã Plástica; Especialista pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
II. Médico Cirurgião Plástico; Cirurgião-Dentista Bucomaxilofacial.

Correspondência para:
Tatiana Martins Caloi
Empresarial Burle Marx - Av. Gov. Agamenon Magalhães, 2615, sala 104
Boa Vista, Recife, PE, Brasil - CEP: 50050-290
Tel: 0xx81 3231-6808
E-mail: tatianacaloi@terra.com.br

Trabalho realizado no Hospital Municipal Infantil Menino de Jesus - São Paulo.

Artigo recebido: 02/12/2004
Artigo aprovado: 23/01/2005
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