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Artigo Original - Ano 2015 - Volume 30 - Número 2

http://www.dx.doi.org/10.5935/2177-1235.2015RBCP0140

RESUMO

INTRODUÇÃO: O interesse antigo na reconstrução dos defeitos labiais pode ser explicado pela sua localização e pela singularidade da sua anatomia. Assim, o objetivo deste trabalho é discutir as melhores alternativas para a reconstrução labial.
MÉTODOS: Foi realizada uma análise retrospectiva de 50 casos submetidos à reconstrução primária dos lábios superior e inferior com o emprego de retalhos locais, no período de janeiro de 2000 a janeiro de 2014. Os defeitos foram divididos quanto à sua localização e quanto ao tamanho: defeitos que acometem até 1/3 do lábio e mais de 1/3 do lábio. O período de acompanhamento pósoperatório variou de 2 meses a 3 anos.
RESULTADOS: A idade dos pacientes variou entre 22 e 91 anos. A maior incidência foi na 7ª década de vida. Dentre as 50 reconstruções realizadas, 33 foram no lábio inferior (66%) e 17 no lábio superior (34%). Para defeitos pequenos, de até 1/3 do lábio, empregou-se a sutura simples (23 casos). Os demais 27 casos, cujos defeitos eram maiores que 1/3 do lábio, exigiram procedimentos com graus variáveis de complexidade.
CONCLUSÕES: Para a reparação dos defeitos de até 1/3 do lábio inferior, a sutura direta é a melhor opção. Para a reconstrução de defeitos maiores que 1/3 do lábio inferior, devemos optar pelos retalhos de Gillies e Karapandzic, pois são confiáveis e capazes de restaurar a função labial. No caso de defeitos maiores que 50% do lábio, devemos evitar as técnicas de Gillies e Karapandzic, a fim de evitar a microstomia.

Palavras-chave: Lábio; Cirurgia; Reconstrução.

ABSTRACT

Introduction: Reconstruction of lip defects is popular owing to lip location and its anatomy. Thus, the objective of this work was to discuss the best options available for lip reconstruction.
Methods: This retrospective study included 50 patients who had undergone primary upper and lower lip reconstruction using local flaps, between January 2000 and January 2014. The defects were divided according to their location and size: defects affecting up to 1/3 of the lip and affecting more than 1/3 of the lip. The postoperative follow-up varied from 2 months to 3 years.
Results: Patient age ranged from 22 to 91 years. Most patients were in their seventies. Of the 50 reconstructions performed, 33 were in the lower lip (66%) and 17 in the upper lip (34%). For small defects affecting up to 1/3 of the lip, simple sutures were used (23 cases). The other 27 cases, in which more than 1/3 of the lip was affected, required interventions of different complexities.
Conclusion: When repairing defects up to 1/3 of the lower lip, the direct suture is the most suitable option. For defects affecting more than 1/3 of the lower lip, the Gillies and the Karapandzic flaps should be chosen instead, as they are reliable and allow the reestablishment of lip functionality. For defects affecting > 50% of the lip, and the Gillies and the Karapandzic flaps should not be considered, specifically to avoid microstomia.

Keywords: Lip; Surgery; Reconstruction.


INTRODUÇÃO

O interesse na reconstrução dos defeitos labiais advém de séculos. A primeira menção a um reparo de um defeito labial data do ano 1000 A. C. e foi feita por Sushruta. Celsus, em 25 D.C., realizou incisões de relaxamento nas bochechas para facilitar o fechamento de um defeito no lábio inferior. Contudo, foram creditados a Louis, em 1768, os primeiros relatos de uma ressecção em cunha de lesões labiais e a sutura direta de suas margens. Este interesse secular pode ser explicado pela localização dos lábios, bem no centro do terço inferior da face, e pela singularidade da sua anatomia, que faz com que as cicatrizes e as distorções labiais afetem negativamente a percepção da honestidade, a empregabilidade, a confiabilidade e a capacidade da pessoa como um todo.

Desde então, ao longo dos anos, foram descritas inúmeras técnicas para a reconstrução dos defeitos labiais, com variados graus de complexidade e diferentes resultados.


OBJETIVOS

Assim, o objetivo deste trabalho é discutir as melhores alternativas para a reconstrução labial, capazes de obter os melhores resultados, não só do ponto de vista funcional, mas também do estético.


MÉTODOS

Foi realizada uma análise retrospectiva de pacientes submetidos à reconstrução labial após a ressecção de tumores pelo autor, no período de janeiro de 2000 a janeiro de 2014, nos hospitais universitários Clementino Fraga Filho e Antonio Pedro, Mario Kroeff e na clínica privada. Os critérios de inclusão foram: defeitos labiais originários da ressecção de tumorações; reconstrução imediata, no mesmo tempo cirúrgico; reconstrução com o emprego de retalhos locais. Critérios de exclusão: reconstrução tardia; retalhos livres microcirúrgicos. Os defeitos foram divididos quanto à sua localização (lábio superior ou inferior) e quanto ao tamanho: defeitos que acometem até 1/3 do lábio e mais de 1/3 do lábio.


RESULTADOS

Foram estudados um total de 50 casos de reconstrução labial. Quase todas as ressecções de tecido labial foram realizadas para o tratamento de tumorações malignas ou pré-malignas, tais como carcinomas basocelulares, espinocelulares ou ceratoses actínicas. Apenas um caso deveu-se a um hemangioma.

A faixa etária dos pacientes variou entre 22 e 91 anos, com idade média de 60,90 anos. A maior incidência foi na 7ª década de vida (60 - 69 anos), com 12 pacientes. Houve um predomínio de 50% dos pacientes entre a 6ª e a 7ª décadas.

O período de acompanhamento pós-operatório variou de 2 meses a 3 anos, com um tempo médio de 10,7 meses.

Do total de 50 reconstruções realizadas, 33 foram no lábio inferior (66%) e 17 no lábio superior (34%).

Para defeitos pequenos, de até 1/3 do lábio, empregou-se a sutura simples (Figura 1). Os demais casos, cujos defeitos eram maiores que 1/3 do lábio, exigiram procedimentos com graus variáveis de complexidade (Tabela 1).


Figura 1. Ressecção e sutura simples.




DISCUSSÃO

Os objetivos a serem alcançados em uma reconstrução labial são múltiplos. O primeiro deles é funcional. Não importa quão bela seja uma reconstrução labial se a competência oral não for restaurada1. Esta competência é proporcionada pelo músculo orbicular dos lábios, cujas fibras são orientadas, primariamente, na horizontal (Figura 2). A preservação da inervação sensitiva também é importante, pois um lábio com sensibilidade funcionará melhor do que um lábio insensível1. Os melhores resultados são aqueles onde o esfíncter é reconstruído e a sensibilidade preservada1. Assim, do ponto de vista funcional, o lábio reconstruído deve ter função de esfíncter, não permitir o vazamento de líquidos, possuir abertura suficiente para a alimentação, higiene e para o uso de próteses dentárias, além de ter sensibilidade1.


Figura 2. Músculo orbicular dos lábios. O principal responsável pela competência labial. Autor da ilustração: Luciane dos Santos Mori.



Com o objetivo de obtermos um melhor resultado do ponto de vista estético, durante o planejamento de uma reconstrução labial, alguns pontos importantes devem ser considerados (Figura 3).


Figura 3. Limites topográficos e subunidades estéticas dos lábios: pontos de referência importantes na reconstrução dos lábios. Autor da ilustração: Luciane dos Santos Mori.


1. Utilizar retalhos locais, incluindo musculatura inervada, pois são os que oferecem a melhor combinação entre cor, textura e espessura com os tecidos labiais a serem reconstruídos2,3.

2. Respeitar os limites topográficos e as subunidades estéticas, posicionando as suturas nestes sulcos faciais ou seguindo as linhas de união destas subunidades2-4.

3. Manter a relação lábio superior X inferior, preservando a simetria5.

4. Alinhar perfeitamente a zona de transição entre o vermelhão e a pele, evitando suturas nesta linha6,7.
A falha em respeitar estes princípios certamente leva a um resultado de qualidade inferior, com cicatrizes mais aparentes, que é instantaneamente percebido, mesmo por um observador casual1,4. Neste trabalho, a escolha da técnica de reconstrução variou conforme o grau de comprometimento do lábio, com a localização da lesão e com a experiência do autor.

O emprego de retalhos à distância ou de retalhos livres microcirúrgicos é reservado para os casos onde não é possível a reconstrução com a utilização de tecidos locais ou àquelas grandes reconstruções complexas que envolvam outras estruturas, como o assoalho da boca, o mento e a mandíbula1,5,7-9.

Lábio superior

No lábio superior, a sutura primária deve ser restrita a pequenos defeitos e os retalhos locais que podem ser usados são poucos porque frequentemente distorcem o filtro e o "arco de cupido", o nariz, a linha cutaneomucosa e o sulco nasogeniano1,10.

Nos defeitos um pouco maiores, que não podem ser reparados por sutura primária, o retalho cutâneo de avançamento, desenhado dentro da mesma unidade estética do lábio superior, é o método de eleição10, uma vez que a distorção das rugas periorais, do sulco nasogeniano e dos pelos é mínima10. Este retalho é avançado na direção do defeito através da excisão de uma porção de tecido ao redor da asa nasal, como um "crescente perialar de compensação" (Figura 4)1,8,11. Outra maneira de avançar o retalho sem distorcer a linha de transição cutaneomucosa, é fazendo uma incisão ao longo da borda do vermelhão, com a cicatriz resultante em "T" invertido e com o eixo vertical da cicatriz alinhado a crista filtral (Figura 5)5. Neste trabalho, não foi observada nenhuma complicação com o uso do retalho cutâneo de avançamento nos 3 casos em que ele foi empregado, tendo obtido um excelente resultado estético.


Figura 4. Retalho cutâneo, avançado após a retirada de um crescente perialar de pele para compensação. Observe o posicionamento final das cicatrizes.


Figura 5. Retalho cutâneo de avançamento: posição final das cicatrizes em T invertido, respeitando o sentido da coluna filtral e a linha de transição do vermelhão.



Os retalhos de transposição perilabiais também podem ser utilizados para a reconstrução de defeitos de espessura parcial do lábio superior e têm como vantagem o recrutamento de uma quantidade maior de tecido do que os retalhos de avançamento10. O mais utilizado deles é o retalho nasogeniano. Ele pode ser confeccionado tanto com o pedículo superior quanto inferior. Os de pedículo superior habitualmente são usados para a reparação de defeitos localizados na porção central do lábio superior10. Os de pedículo inferior são usados, com mais frequência, para o reparo de defeitos situados na parte lateral do lábio superior ou no lábio inferior2,10.

As principais desvantagens deste retalho são de natureza estética: ele pode causar uma distorção significativa do importante limite topográfico representado pelo sulco nasogeniano (Figura 6)2,10, pode provocar um pinçamento no lábio reconstruído2 e pode apresentar um edema permanente na sua curvatura inferior10. Dentre os 50 casos revisados neste artigo, o retalho nasogeniano foi realizado em 6 casos sendo que, em um deles, houve a recidiva local da lesão, com o paciente sendo submetido à nova excisão cirúrgica e fechamento por sutura primária e, em outros dois pacientes, foram observadas duas destas complicações de natureza estética: em um dos pacientes, houve o pinçamento do lábio superior, provavelmente após contração cicatricial do retalho, que fora planejado demasiadamente estreito. O paciente foi submetido à queiloplastia pela técnica de Millard, com bom resultado. E em outro paciente, ocorreu um edema permanente na curvatura inferior do retalho (Figura 7). Como alternativa ao retalho nasogeniano, a fim de evitar a distorção do sulco, pode-se executar o retalho de avançamento em V-Y, de pedículo subcutâneo, conforme descrito por Griffin et al.12. Este retalho é uma excelente alternativa para a reparação de defeitos cutâneos maiores que 1 cm na porção lateral do lábio superior que não envolvam a asa nasal nem o vermelhão12.


Figura 6. Retalho nasogeniano de pedículo inferior. Observe o apagamento total do sulco nasogeniano esquerdo.


Figura 7. Edema permanente na curva inferior do retalho e apagamento do sulco nasogeniano.



O retalho de Abbé13, descrito primeiramente por Pietro Sabattini em 1838, consiste na transferência de tecido do lábio inferior para o superior (ou vice-versa), mantendo-se pediculado na artéria labial (Figura 8). Nos dois casos submetidos à reconstrução com retalho de Abbé (Figura 9), não ocorreram complicações. No entanto, houve um caso de recidiva local da lesão. O retalho pode ser único ou duplo, quadrilátero, ou até mesmo em ilha, e a sua largura deve ser aproximadamente a metade do comprimento do defeito a ser reparado2. É muito utilizado para a reconstrução de defeitos de espessura total de até 50% do lábio superior, tanto centrais como laterais e que não envolvam a comissura1,7,10,14. Tem como vantagem proporcionar a reposição de um segmento vertical completo, formado por pele e por vermelhão7. A principal desvantagem é o fato de permanecer pediculado por cerca de 14 a 21 dias1, necessitando de grande colaboração do paciente. Neste trabalho, não houve complicação alguma relacionada à confecção deste retalho, mas um caso de recidiva local do tumor, causada pela inadequação das margens cirúrgicas da excisão.


Figura 8. Retalho de Abbe. Autor da Ilustração: Eduardo Furtado Souza.


Figura 9. Retalho de Abbe.



Lábio inferior

Defeitos de até 1/3 do lábio


A excisão em V seguida de síntese primária deve ser sempre a primeira opção para o reparo dos defeitos que atingem até 30% do lábio inferior.1,2,7-11,15,16. Dos 23 casos de defeitos de até 1/3 do lábio reconstruídos com sutura primária, foi executada a excisão em V em quase todos, à exceção de um, onde foi feita a excisão em W (Figura 10). No entanto, esta opção pela excisão em V, algumas vezes sem o exame das margens por congelação, pode ter sido a responsável pelos 3 casos de recidiva local e pelos 2 casos de margem comprometida por lesão. Todos foram submetidos à nova cirurgia com ressecção da área comprometida.


Figura 10. Excisão em W, a fim de não prolongar a cicatriz final além do sulco submentoniano.



Papadopoulos et al.17 demonstraram, em uma grande série de 899 pacientes com câncer de lábio, uma taxa maior de recorrência da lesão em cinco anos nos pacientes submetidos à excisão e sutura direta quando comparados àqueles submetidos à vermilionectomia ou à excisão do tumor seguida pela reconstrução com retalhos. Atribuiu este resultado à insuficiência das margens da ressecção e recomendou maiores estudos para confirmar os seus achados. Por outro lado, Casal et al.18 não observaram diferença estatisticamente significativa nas taxas de mortalidade e de recorrência local associadas aos diferentes tipos de reconstrução utilizadas. Quando a excisão em V tiver que ser demasiadamente grande para não estreitar as margens da ressecção, deve-se executar uma incisão de relaxamento ao longo do sulco mentoniano ou modificar a excisão para a forma de W10,19. Faulhaber et al.19 propuseram um fluxograma no qual defeitos de até 15% do lábio inferior são tratados com excisão em V e sutura primária e defeitos entre 15 e 30% são tratados com excisão em W ou zetaplastias.

Para a obtenção de um melhor resultado estético, a excisão em V deve ser planejada de tal forma que o seu eixo seja orientado favoravelmente em relação às linhas de tensão da pele10. Isto posto, nas porções laterais do lábio, o V deve ser traçado mais obliquamente1. E, por fim, para evitarmos uma cicatriz labial deprimida ou retraída, devemos ter atenção na recomposição do defeito labial, que deve ser feita em, pelo menos, quatro planos teciduais: mucosa, músculo, subcutâneo e pele9,10.

No caso de pequenas lesões cutâneas dos lábios é possível, muitas vezes, realizar apenas uma excisão em cunha seguida de sutura simples, com o eixo posicionado em harmonia com as linhas de força da pele. Plásticas em M podem ser usadas nas extremidades das cunhas para se evitar ultrapassar a borda do vermelhão10.

Defeitos maiores que 1/3 do lábio

Nas perdas teciduais maiores que 1/3 do lábio, os retalhos locais são as melhores alternativas para a reconstrução1,2,5,7-11. Algumas das técnicas mais empregadas, e que oferecem bons resultados, são os retalhos de rotação e avançamento pela comissura labial, tais como os retalhos de Gillies20 e Karapandzic21 e os retalhos de transferência labial, tais como os retalhos de Abbé13 e Estlander22.

O retalho descrito por Gillies e Millard, em 195720, é indicado para a reconstrução de defeitos entre 1/3 e 2/3 do lábio2, podendo chegar a 80% do lábio1, mas com resultados estéticos inferiores, já que pode resultar no encurtamento labial, no apagamento das comissuras e em microstomia1. Dentre os 10 casos submetidos à reparação com o retalho de Gillies (Figura 11), não ocorreram complicações quanto à confecção do retalho. Porém, houve um caso de recidiva local, em um paciente portador de xeroderma pigmentoso com lesões difusas na face e que abandonou o acompanhamento. O retalho de Gillies é confeccionado através das três camadas da região geniana, podendo ser uni ou bilateral, proporcionando a rotação de tecido ao redor da comissura labial, de forma semelhante ao de Estlander, porém, incluindo uma quantidade maior de tecido da região nasolabial23. No seu planejamento, marca-se o local do novo ângulo da boca, responsável pelo pedículo do retalho, com pelo menos 1,5 cm de largura e, em seguida, roda-o por cerca de 60º na direção do defeito23. É feita uma incisão vertical de relaxamento na área doadora, que resulta em algum grau de desnervação24 que pode piorar a incompetência oral. Costuma ocorrer a reinervação parcial do retalho em 12 a 18 meses24.


Figura 11. Retalho de Gillies.



O retalho de Karapandzic21, descrito em 1974, consiste no uso de dois retalhos nasolabiais semilunares, pediculados superiormente, que preservam a maioria das estruturas vasculares e nervosas locais, levando musculatura inervada para a reconstrução21,25. Para defeitos pequenos, o retalho unilateral é suficiente, mas defeitos maiores que 50% do lábio requerem retalhos bilaterais1. Nestes casos, todavia, o resultado estético é pior, pois teremos a atenuação e o arredondamento da comissura labial. Quando executado de forma estendida, é capaz de restaurar até 100% do lábio26. Contudo, quanto maior o defeito, maior a possibilidade de microstomia1,25,27. Neste estudo, não houve nenhuma complicação pós-operatória nos 3 casos submetidos a reconstrução com retalho de Karapandzic (Figura 12).


Figura 12. Retalho de Karapandzic.



A técnica de Gillies e a de Karapandzic apresenta duas vantagens do ponto de vista estético: preservam a comissura labial e a sua cicatriz principal, a mais longa, é posicionada ao longo, ou até mesmo em cima, do sulco nasogeniano10, tornando-a menos aparente no longo prazo.

A despeito de não ser considerada uma complicação, a microstomia é uma consequência direta e, por vezes, inevitável das grandes reconstruções com os retalhos de Gillies e Karapandzic1,7. Apesar de preservarem anatomicamente as comissuras após a rotação do retalho, elas acabam por avançar um pouco na direção medial. Dos 3 retalhos de Karapandiz executados, 2 resultaram em microstomia e dos 10 retalhos de Gillies executados, ocorreu a microstomia em 4 casos (Figura 13). Deste total de 6 pacientes com microstomia, 4 foram submetidos à comissuroplastia (Figura 14), 1 abandonou o acompanhamento (o mesmo paciente com xeroderma pigmentoso) e 1 não foi operado por motivo desconhecido. No entanto, não são todos os casos de microstomia em que se faz necessária a reparação pela comissuroplastia. Se o paciente conseguir se alimentar normalmente, se houver contenção de saliva e se conseguir articular as palavras adequadamente, não reclamará da microstomia21,28. Não foi encontrado relato de nenhuma outra intercorrência ou complicação relacionada às reconstruções realizadas com os retalhos de Gillies e de Karapandzic.


Figura 13. Microstomia após reconstrução com retalho de Gillies bilateral.


Figura 14. Comissuroplastia. Pré-operatório e pós-operatório imediato e tardio.



Para a cobertura de defeitos de 50% ou mais na porção lateral do lábio inferior e visando evitar a microstomia, temos a opção de um retalho de transferência labial cruzada, como o descrido por Estlander22, em 1872 (Figura 15). Ele consiste de um retalho triangular de espessura total, desenhado na porção lateral do lábio superior e rodado 180 graus ao redor da comissura22.


Figura 15. Retalho de avançamento de mucosa oral.



O "Método da Escada", descrito por Johanson et al.29 em 1974, é uma alternativa aos retalhos de Gillies20 e Karapandzic21, para reconstruir defeitos de até 2/3 do lábio inferior29. Este método consiste em dois retalhos de espessura total, que são avançados medialmente através da confecção de "degraus de escada".

Nos casos de grandes perdas labiais, maiores que 60%, e a fim de tentar evitar a ocorrência de microstomia, podemos utilizar os retalhos de McGregor23, Nakajima30 Webster-Bernard31, ou até mesmo uma combinação de diferentes técnicas.

Utilizando-se do método proposto por McGregor23, uma modificação da técnica de Gillies20, é possível a reconstrução de defeitos de até 100% do lábio inferior. Este retalho é melhor indicado para a reconstrução de defeitos laterais do lábio10, pois utiliza a comissura como ponto de rotação, evitando a sua distorção. No entanto, ele provoca uma alteração no sentido das fibras musculares periorais e a denervação do segmento reconstruído, além de tornar obrigatória a reconstrução do vermelhão23, que pode ser feita com um retalho de língua. Pode ser empregado, também, para reparar o lábio superior.

O método de Nakajima30 roda por sobre a comissura labial, preservando-a e também requer a reconstrução do vermelhão. Contudo, diferentemente do proposto por McGregor, que é confeccionado com espessura total de tecido, o retalho de Nakajima é confeccionado com espessura parcial, mantendo o suprimento sanguíneo pela artéria facial e não pela labial. Deste modo, é possível o prolongamento da incisão superior até bem próximo da borda do vermelhão, confeccionando um retalho de tamanho maior, com redução da sobra de tecido ("orelha de cachorro")30.

A técnica de Webster-Bernard31 advém do antigo conceito proposto por Bernard e Von Burrou e modificada, em 1960, por Webster. Este método consiste no avançamento, em direção medial, de um retalho das bochechas, preservando as estruturas vásculo-nervosas e a função esfincteriana. Apesar dos excelentes resultados funcionais, tem algumas desvantagens estéticas, tais como a formação de um sulco na incisão labial central, o achatamento do lábio reconstruído com a consequente protrusão do lábio superior, o encurtamento das bochechas e a redução do sulco gengivolabial7,8,32.

A utilização dos retalhos nasogenianos bilaterais complexos, como o proposto por Fujimori3, é outra boa opção para a reconstrução de defeitos totais do lábio inferior. Com esta técnica, podemos confeccionar retalhos até 3 cm maiores que os nasogenianos comuns sem que ocorra a aproximação das bordas das comissuras, o que acontece inevitavelmente nas técnicas de Gillies20 e Karapandzic21 e que é a responsável pela microstomia. Ademais, esta técnica mantém intactas as camadas muscular e mucosa no pedículo, transportando musculatura inervada para o defeito - o que é sempre vantajoso do ponto de vista funcional, um retalho inervado - e são confeccionados em ilha, sem a formação das "orelhas-de-cachorro"3.

Outra abordagem para a reconstrução de grandes defeitos do lábio inferior é a combinação de diferentes técnicas, tais como Webster com Karapandzic33, Webster com Abbé (Meyer-Abul-Failat)10 ou Webster com "Escada"34.

Vermelhão

O vermelhão do lábio inferior, após ressecado, pode ser restaurado com a sutura direta de suas bordas ou através da confecção de um retalho de avançamento da mucosa oral1,2,10. Nesse trabalho, nos 3 casos de reconstrução do vermelhão, a opção foi pela realização de um retalho de avançamento de mucosa, confeccionado através do descolamento da mucosa oral remanescente até o sulco gengivolabial, avançando-o na direção anterior, com bons resultados, sem complicações1,2. O emprego da mucosa oral através de um retalho para a reconstrução do vermelhão trata-se do método mais natural para este tipo de reconstrução10, já que apresenta bastante semelhança com o vermelhão do lábio, tornando a cicatriz quase imperceptível. Entretanto, a reconstrução da posição exata da linha anterior do vermelhão pode ser difícil de ser obtida, permanecendo alguma assimetria10. Sand et al.35 observaram um resultado estético um pouco melhor e uma menor redução na largura do vermelhão no grupo de pacientes reconstruídos pelo retalho de avançamento de mucosa quando comparados ao grupo reparado pelo fechamento primário. Em vista disso, ele defende o fechamento primário como uma opção viável nos pacientes idosos e de maior morbidade35.

Outra excelente alternativa para a reconstrução do vermelhão do lábio inferior são os retalhos de língua, uma vez que sua excelente vascularização torna o seu uso bastante confiável2,36, sendo capaz de reparar perdas significativas -do vermelhão. Na reconstrução, costuma-se usar mais a face ventral da língua36, pois melhor mimetiza a cor e a textura do vermelhão. A grande desvantagem deve-se ao fato do procedimento ter de ser realizado em duas etapas, permanecendo pediculado por 14 dias2.

Apesar da busca incessante pelo melhor resultado estético possível, não podemos nos descuidar jamais do foco de uma reconstrução labial, que é o restauro da função após a obtenção do controle local da doença1,5,11. Porém, todo cirurgião plástico opta pela técnica que é capaz de fornecer o adequado reparo com as melhores e menores cicatrizes possíveis. Somando isso ao fato de que muitos hospitais públicos não dispõem do exame perioperatório por congelação das margens das peças cirúrgicas, pode-se explicar os casos de recorrência local e margens comprometidas observados neste estudo. Todos os casos de margem comprometida e recorrência local da lesão foram submetidos à nova excisão e sutura, sem complicações, com exceção de um paciente, portador de xeroderma pigmentoso, com múltiplas outras lesões na face, que habitava em uma área carente e distante e que abandonou o acompanhamento.


CONCLUSÕES

Para a reconstrução de defeitos lábio superior, os retalhos cutâneos de avançamento proporcionam bons resultados estéticos, com mínima distorção da anatomia labial. Deve-se buscar alternativas ao retalho nasogeniano, pois podem causar distorções importantes do sulco nasogeniano e apresentar resultados estéticos de qualidade inferior.

Para a reparação dos defeitos de até 1/3 do lábio inferior, a sutura direta é a melhor opção do ponto de vista estético, desde que, se preciso for, a excisão em V seja modificada para um W a fim de adequar as margens de ressecção. Para a reconstrução de defeitos maiores que 1/3 do lábio inferior, devemos optar pelos retalhos de Gillies e Karapandzic, pois são confiáveis, capazes restaurar a função labial e suas cicatrizes possuem boa qualidade estética. No caso de defeitos maiores que 50% do lábio, devemos evitar as técnicas de Gillies e Karapandzic, a fim de evitar a microstomia.


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1. Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brasil
2. Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, São Paulo, SP, Brasil

Instituição: Hospitais Universitários Clementino Fraga Filho e Antonio Pedro, Mario Kroeff e na clínica privada. Trabalho apresentado no exame para Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica em 2014, Niterói, RJ, Brasil.

Autor correspondente:
Pedro Leonardo Sanches Faveret
Rua Pinheiro Machado, 22, apto 205, bloco 2, Laranjeiras
Rio de Janeiro, RJ, Brasil CEP 22231-090
E-mail: contato@pedrofaveret.com.br

Artigo submetido: 17/11/2014.
Artigo aceito: 21/4/2015.

 

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