Open Access Revisão por pares

Review Article - Year 2026 - Volume 41Issue 1

Remodelamento costal estético em adultos: Revisão sistemática de eficácia e segurança

Esthetic Rib Remodeling in Adults: A Systematic Review of Efficacy and Safety

http://www.dx.doi.org/10.1055/s-0046-1822641

RESUMO

Introdução O remodelamento costal estético objetiva reduzir a circunferência da cintura e remodelar o arco costal, mas a evidência disponível permanece limitada.
Objetivo Avaliar a eficácia, segurança e viabilidade técnica do remodelamento costal estético em adultos saudáveis.
Materiais e Métodos: Revisão sistemática nas bases Public Medical Literature (PubMed)/Medlars online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Cochrane Library até 28 de abril de 2025. Dois revisores conduziram triagem independente. Onze estudos atenderam aos critérios de inclusão, contemplando rib-extension or Costari (RibXcar), ultrasound-assisted indentation surgery of the torso (UUAIST), rib osteosynthesis stabilization (RIBOSS), ultrasonic ostemodeling for body contouring (ORUS), waistline esthetic slimming by puncture (WASP) e abordagem paralela, fratura greenstick e ressecção de costelas flutuantes.
Resultados A redução documentada da cintura variou entre 6 e 13 cm, sendo a maior magnitude associada à RIBOSS. As complicações registradas incluíram queimaduras cutâneas (n = 2), atelectasias (n = 2), pneumotórax (n = 2 intraoperatórios + 1 tardio), derrame pleural prolongado (n = 1), deiscência leve (n = 1) e assimetrias (n = 3).
Conclusão As técnicas demonstram benefício estético de curto prazo; porém, a qualidade metodológica dos estudos é baixa e não há avaliação funcional em longo prazo, limitando conclusões sobre segurança, durabilidade e indicações ideais.

Palavras-chave: cirurgia plástica; cirurgia estética; cirurgia torácica; ressecção de costela; contorno corporal

ABSTRACT

Introduction Esthetic rib remodeling reduces waist circumference, but available evidence remains scarce. Objective To assess the efficacy, safety, and technical feasibility of esthetic rib remodeling in healthy adults.

Materials and Methods Systematic review of Public Medical Literature (PubMed)/ Medlars online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), and Cochrane Library on April 28, 2025. Two reviewers independently selected the studies. Eleven clinical studies met the inclusion criteria, covering ribextension or Costari (RibXcar), ultrasound-assisted indentation surgery of the torso (UUAIST), rib osteosynthesis stabilization (RIBOSS), ultrasonic ostemodeling for body contouring (ORUS), waistline esthetic slimming by puncture (WASP) and parallel approach, greenstick fracture, and floating-rib resection.

Results Waist reduction ranged from 6 to 13 cm, being higher for RIBOSS. Reported complications included minor burns (n=2), atelectasis (n=2), pneumothorax (n=2 [intraoperative]þ1 [delayed]), prolonged pleural effusion (n=1), mild dehiscence (n=1), and contour asymmetries (n=3).

Conclusion Although these techniques provide short-term cosmetic benefit, the low methodological quality o the studies and absence of long-term functional outcomes prevent definitive conclusions regarding safety, durability, and ideal indications.

Keywords: plastic surgery; cosmetic surgery; thoracic surgery; rib resection; body contouring


Introdução

Nos últimos anos, o remodelamento costal tem emergido como uma abordagem inovadora dentro da cirurgia estética do contorno corporal, especialmente entre pacientes que buscam afilamento da cintura, maior definição torácica e harmonia da silhueta. Entre as técnicas descritas, destacamse a fratura monocortical guiada por imagem (ultrasound-assisted indentation surgery of the torso – UUAIST, em inglês), a osteotomia estabilizada com placas (rib osteosynthesis stabilization – RIBOSS, em inglês) e a ressecção seletiva das costelas flutuantes.1–3

Além da busca por aprimoramento estético, há um número crescente de pacientes que recorrem a essas intervenções com finalidades específicas, como a feminilização corporal ou o alinhamento do contorno torácico à identidade de gênero. Nesse contexto, técnicas de redução ou remode-lamento costal têm sido utilizadas para reduzir a relação cintura-quadril (RCQ) e realçar características consideradas femininas.4 Apesar da crescente adoção clínica dessas técnicas, a literatura permanece limitada, composta majoritariamente por séries de casos e sem avaliação integrada de eficácia, segurança e impacto funcional em adultos saudáveis submetidos a procedimentos exclusivamente estéticos.2

Estudos recentes sugerem boa aceitação por pacientes e cirurgiões, com elevada satisfação estética e taxas reduzidas de eventos graves em curto prazo;1–3 porém, a heterogeneidade metodológica, a ausência de controle comparativo e a falta de padronização dos desfechos clínicos, funcionais e estéticos limitam a interpretação dos resultados disponíveis e dificultam a consolidação dessas técnicas como práticas baseadas em evidência.1 Aspectos como a qualidade de vida pós-operatória e a percepção subjetiva de melhora ainda são pouco abordados, embora existam escalas validadas (ex.: BODY-Q) recomendadas para mensurar desfechos psicosso-ciais.5 Além disto, dados objetivos sobre impacto funcional, como parâmetros espirométricos em longo prazo, ainda são escassos.1

Esta revisão sistemática é a primeira, até onde identificamos, a sintetizar exclusivamente evidências referentes ao remodelamento costal com finalidade puramente estética em adultos saudáveis, comparando técnicas, apresentando faixas objetivas de redução (quando reportadas) e organizando complicações segundo incidência documentada. Dife-rentemente de revisões anteriores que incluíram populações heterogêneas ou contextos reconstrutivos, o presente estudo concentrase apenas em procedimentos estéticos, permitindo uma avaliação mais precisa de eficácia e riscos. Nesse contexto, buscamos preencher uma lacuna crítica, oferecendo uma síntese sistematizada capaz de subsidiar decisões clínicas, orientar práticas cirúrgicas e apoiar o desenvolvimento de diretrizes futuras.

Materiais e Métodos

Trata-se de uma revisão sistemática da literatura desenvolvida em consonância com as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA)6 e de acordo com as orientações do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE) para elaboração de manuscritos científicos.

A pergunta norteadora foi formulada com base na estratégia população, intervenção, comparação, desfechos (PICO):7 P (população): adultos sem doenças torácicas; I (intervenção): técnicas de remodelamento costal com finalidade estética; C (comparação): quando aplicável, ausência de intervenção ou comparação entre diferentes técnicas cirúrgicas; O (desfechos): redução da circunferência da cintura, RCQ, satisfação estética, complicações cirúrgicas e viabilidade técnica.

A busca sistematizada foi realizada nas bases Public Medical Literature (PubMed)/Medlars online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Cochrane Library, compreendendo publicações desde o início dos registros até 28 de abril de 2025, data da última busca, utilizando termos livres e descritores combinados por operadores booleanos, como: rib remodeling, esthetic rib resection, floating rib removal, waist reduction surgery, “rib contouring”, “body contouring surgery, greenstick fracture, rib osteotomy, rib reshaping e thoracic feminization. A estratégia completa de busca, com descritores e operadores booleanos utilizados em cada base, está detalhada no Material Suplementar 1.

Os critérios de inclusão foram: estudos que descrevessem procedimentos realizados exclusivamente para fins estéticos, sem finalidade reconstrutiva; população composta por indivíduos adultos (≥ 18 anos), independentemente de sexo ou identidade de gênero, sem histórico ou diagnóstico de doenças torácicas. Foram considerados elegíveis artigos que abordassem técnicas de remodelamento costal, incluindo fratura greenstick, osteotomia monocortical, piezotomia ou ressecção de costelas flutuantes, desde que com finalidade estética, com desenho de estudo do tipo ensaio clínico (randomizado ou não), coorte prospectiva ou retrospectiva, ou série de casos com ≥ 5 pacientes.

Foram incluídos artigos que relataram pelo menos um dos seguintes desfechos: redução da circunferência da cintura, alteração da RCQ, avaliação da simetria corporal, satisfação do paciente e taxa de complicações. Foram considerados apenas estudos publicados em inglês ou espanhol e disponíveis em texto completo. Os critérios de exclusão compreenderam: estudos com finalidade reconstrutiva; população inadequada (pacientes menores de 18 anos, com doenças torácicas, alterações pulmonares significativas ou submetidos à reconstrução torácica funcional); séries de casos com menos de cinco pacientes; artigos sem acesso ao texto completo ou disponíveis apenas como resumo.

A triagem foi conduzida por dois revisores independentes, em duas etapas: leitura de títulos e resumos e, posteriormente, leitura integral dos textos potencialmente elegíveis. Foi calculado o coeficiente de concordância interavaliadores Kappa de Cohen (κ = 0,82), indicando concordância quase perfeita.

Os métodos de avaliação foram classificados como objetivos (por exemplo, mensuração de circunferência abdominal, razão cintura/quadril, imagens padronizadas) ou subjetivos (autorrelato, opinião do cirurgião, satisfação espontânea). Além disso, quando aplicável, foram identificadas e registradas ferramentas padronizadas de avaliação psicossocial em cirurgia estética, como o BODY-Q.

Cada estudo foi agrupado conforme a técnica descrita e os principais desfechos clínicos. Foi realizada uma análise qualitativa dos resultados, com os estudos classificados em três categorias: (a) positivos (+), quando demonstravam resultados consistentes de redução da cintura, baixa taxa de complicações e elevada satisfação estética; (b) neutros (0), quando os resultados eram inconclusivos, inconsistentes ou limitados por falhas metodológicas; e (c) negativos (–), quando os resultados não foram satisfatórios.

A avaliação da qualidade metodológica foi realizada de acordo com o delineamento de cada estudo. Estudos observacionais foram avaliados por meio da escala de Newcastle-Ottawa (Newcastl-Ottawa Scale, NOS, em inglês),8 e séries de casos seguiram critérios adaptativos de Murad et al.9

A síntese final dos achados foi realizada de forma narrativa, sem metanálise, em razão da heterogeneidade dos métodos, populações, intervenções cirúrgicas e instrumentos de avaliação. A triagem e seleção dos estudos é descrita de acordo com o modelo PRISMA, conforme ilustrado no fluxograma (Fig. 1). Para assegurar transparência no rigor metodológico, a classificação da qualidade dos estudos incluídos segundo as ferramentas NOS e Murad encontrase organizada na Tabela 1.

Tabela 1 - Qualidade metodológica (NOS/Murad)
Estudo e ano Desenho Ferramenta aplicada N Seguimento Mensuração de desfechos Grupo controle Risco de viés Pontuação (NOS/Murad)* Classificação final
Manzaneda et al.10, 2023 Série de casos Murad 30 Insuficiente (3 meses) Objetivo parcial (circunferência + satisfação) Não Alto 3 de agosto Baixa qualidade
Manzaneda et al.11, 2024 Série de casos Murad 100 NI NI Não NI NI Não classificável
Donders e Saenz,12 2025 Série de casos Murad 220 Adequado (6 meses) Circunferência + imagem Não Moderado 6 de agossto Qualidade moderada
Valdivieso et al.13, 2024 Estudo prospectivo multicêntrico NOS (adaptado) 131 Adequado Objetivo (circunferência) + subjetivo Não Moderado 7 de setembro Qualidade moderadaalta
Villa et al.14, 2025 Coorte retrospectiva NOS 27 Insuficiente (< 6 meses) Objetivo Não Alto 5 de setembro Baixa-moderada
Avilez et al.16, 2025 Série de casos Murad 120 Adequado Objetivo Não Moderado 6 de agosto Moderada
Perez et al.15, 2023 Resumo (abstract) NI NI NI NI NI NI NI Não classificável
Kudzaev e Kraiushkin,17 2021 Série de casos Murad 93 Apenas 14 com seguimento objetivo Objetivo para subgrupo Não Alto 4 de agosto Baixa
Hoyos et al.20, 2023 Série de casos Murad 15 Insuficiente Subjetivo + imagem Não Alto 3 de agosto Baixa
Verdugo,18 2022 Série retrospectiva NAS 104 NI Subjetivo Não Alto NI (NAS sem escore numérico padronizado) Baixa
Chiu et al.19, 2023 Série de casos Murad 5 Insuficiente RCQ objetiva Não Alto de agosto Baixa

Abreviaturas: NOS, Newcastle-Ottawa Scale; RCQ, relação cintura-quadril.

Tabela 1 - Qualidade metodológica (NOS/Murad)

Para a análise descritiva e síntese qualitativa, os dados extraídos dos estudos incluídos foram organizados nas Tabelas 23, que detalham as características dos estudos e a classificação de seus principais desfechos clínicos.

Tabela 2 - Características clínicas, técnicas e desfechos dos estudos incluídos na revisão
Autor(es) e ano Objetivo Metodologia Desenho do estudo Técnica Resultados Complicações Conclusão
Cipriani et al.10, 2023 Avaliar RibXcar guiado por USG Série de casos, n = 30 Série de casos RibXcar guiada por USG Redução da cintura; efeito mantido aos 3 meses 2 queimaduras cutâneas leves; dor referida Eficaz e viável, imagem essencial para segurança
Cipriani et al.11, 2024 Validar som “clack” como indicador de fratura Série de casos, n = 100 Série de casos RibXcar + validação do “clack” O “clack” foi ouvido em 90% dos pacientes; fratura monocortical confirmada por ultrassom em 100% NI Recomendase não utilizar o “clack” como fim da cirurgia, indicando concluir o procedimento apenas após verificação ultrassonográfica
Donders e Saenz,12 2025 Analisar eficácia da RibXcar com HDL Série de casos, n = 220 Série de casos RibXcar combinada com HDL Redução de 6–11 cm em 6 meses; alta satisfação Sem complicações graves; dor leve manejada clinicamente Técnica consistente, segura, efeito estável
Valdivieso et al.13, 2024 Descrever técnica UUAIST com HDL Série multicêntrica, n = 131 Série de casos UUAIST (fratura + HDL) Redução média de ~ 8 cm; 97% satisfação; baixa assimetria Dor prolongada; 3 assimetrias. Promissora; exige controle e seguimento
Villa et al.14, 2025 Avaliar RIBOSS com placas de titânio Coorte retrospectiva, n = 27 Coorte retrospectiva RIBOSS (osteotomia + placas) Redução média ~ 13 cm 1 deiscência leve; dor pós–operatória leve Anatômica, eficaz, mas sem controles
Avilez et al.16, 2025 Apresentar a técnica ORUS Série de casos, n = 120 Série de casos ORUS (piezotomo) Redução da cintura de 89–110 cm para 65–69 cm 2 atelectasias sintomáticas Minimamente invasiva, segura
Perez et al.15, 2023 Resultados estéticos UUAIST + RIBOSS Estudo retrospectivo descritivo (n não confirmado) Estudo retrospectivo descritivo UUAIST + RIBOSS NI Não houve complicações maiores; dor prolongada e assimetria relatadas em associação ao não uso de corset Técnicas descritas como seguras e reprodutíveis, com potencial de maior definição da cintura e benefício estético
Kudzaev e Kraiushkin,17 2021 Avaliar fratura greenstick com colete Série de casos, n = 93 Série de casos Fratura greenstick com colete Redução média de 8 cm apenas em subgrupo de 14 pacientes Nenhuma complicação clínica relatada Simples, eficaz, depende do colete
Hoyos et al.20, 2023 Avaliar WASP como complemento à lipoaspiração Série de casos, n ≈ 15 Série de casos WASP Melhora estética do contorno; redução da RCQ (aproximada) 1 pneumotórax; 1 derrame pleural prolongado Eficaz, alternativa minimamente invasiva
Verdugo,18 2022 Avaliar ressecção das costelas 11–12 Série retrospectiva, n = 104 Série retrospectiva Ressecção costelas 11–12 Melhora visível, sem medidas objetivas 2 pneumotórax intraoperatórios Estética moderada, risco moderado
Chiu et al.9, 2023 Quantificar impacto por RCQ Série de casos, n = 5 Série de casos Ressecção costelas flutuantes RCQ reduziu 7,7% (0,78 → 0,72); satisfação alta Sem complicações; dor leve transitória Sem complicações; dor leve transitória

Abreviaturas: HDL, high-definition liposuction; n, número de participantes; NI, não informado; ORUS, Osteoperfuração Ultrassônica das Costelas; RIBOSS, Rib Osteotomy with Osteosynthesis Stabilization; USG, ultrassonografia; UUAIST, Ultrasound- and Ultrasonic-Assisted Indentation Surgery of the Torso.

Tabela 2 - Características clínicas, técnicas e desfechos dos estudos incluídos na revisão
Tabela 3 - Síntese qualitativa da eficácia, segurança e viabilidade das técnicas de remodelamento costal estético
Estudo Técnica Classificação Segurança Satisfação Viabilidade/ Técnica Aparência estética Recuperação Método de avalia-ção Qualidade metodológica Coerência técnica/ Resultado Evolução temporal Gaps identificados
Cipriani et al.10, 2023 RibXcar guiada por USG + Queimaduras leves + dor Alta Alta, dependente de USG Redução significativa documentada Rápida Objetivo + subjetivo Moderada (30 pacientes, sem grupo controle) Sim Curto prazo (3 meses) Sem controle funcional; perdas de seguimento não relatadas
Cipriani et al.11, 2024 RibXcar + validação do “’clack” + Sem complicações reportadas NI Alta NI NI Intraoperatório (USG para fratura e angulação) Baixa – dados incompletos Não (ausência de medidas numéricas) NI Ausência total de desfechos numéricos; impossibilidade de interpretar eficácia
Donders e Saenz,12 2025 RibXcar combinada com HDL + Sem complicações graves; dor leve Alta Alta Redução 6–11 cm Boa Imagem + circunferência Moderada Sim Curto prazo (6 meses) Procedimento combinado; efeito isolado da técnica não mensurado
Valdivieso et al.13, 2024 UUAIST (fratura + HDL) + Dor prolongada; 3 assimetrias 97% Alta Redução média 8 cm Boa Medidas clínicas Alta Sim Curto prazo Exige acompanhamento; sem avaliação funcional;
Villa et al.14, 2025 RIBOSS (osteotomia + placas) + 1 deiscência leve; dor leve Alta Alta, uso de placas Redução média 13 cm Boa Objetivo (medidas) Moderada Sim Curto prazo Sem grupo controle; custo elevado
Avilez et al.16, 2025 ORUS (piezotomo) + 2 atelectasias sintomáticas Alta Alta Redução 89–110 → 65–69 cm Boa Medidas clínicas Alta Sim Curto prazo Sem avaliação funcional sistematizada
Perez et al.15, 2023 UUAIST + RIBOSS + Sem complicações maiores Alta (descrita textualmente) Elevada (descrita como segura e reprodutível) Melhora estética descrita) Rápida (especialmente para RIBOSS) Subjetivo Baixa Não confirmável NI Sem dados objetivos; sem grupo controle; ausência de avaliação funcional
Kudzaev e Kraiushkin,17 2021 Fratura greenstick com colete + Sem complicações clínicas Alta Alta, simples Redução média 8 cm (apenas subgrupo n = 14) Boa Medidas objetivas Moderada Sim Curto prazo Sem grupo controle; depende de adesão ao colete
Hoyos et al.20, 2023 WASP + 1 pneumotórax + 1 derrame pleural Alta Alta Melhora objetiva da silhueta lateral Rápida Subjetivo + imagem Moderada Sim Curto prazo Sem controle; avaliação subjetiva predominante
Verdugo,18 2022 Ressecção costelas 11–12 0 2 pneumotórax Alta (descrita, não medida) Alta, complexidade anatômica Melhora visível (não objetiva) Moderada Subjetivo Baixa Parcial Curto prazo Sem medidas objetivas; risco pulmonar
Chiu et al.19, 2023 Ressecção costelas flutuantes + Sem complicações; dor leve transitória Alta Alta, técnica direta RCQ reduziu 7,7% (0,78→0,72) Boa RCQ objetivo Alta Sim Curto prazo N = 5; seguimento curto

Abreviaturas: BODY-Q, Body-Related Quality of Life Questionnaire, ORUS, ultrasonic ostemodeling for body contouring; RCQ, razão cintura-quadril; RIBOSS, rib osteotomy with osteosynthesis stabilization; USG, ultrassonografia; UUAIST, ultrasound- and ultrasonic-assisted indentation surgery of the torso; WASP, waistline esthetic slimming by puncture and parallel approach.

Notas: + indica resultado positivo relatado; 0 = resultado neutro. “Viabilidade” referese à aplicabilidade clínica e custo-operacional; “Coerência técnica/resultados” corresponde ao alinhamento entre o objetivo da técnica, execução descrita e os desfechos obtidos. “Curto prazo” referese a ≤ 6 meses de seguimento.

Tabela 3 - Síntese qualitativa da eficácia, segurança e viabilidade das técnicas de remodelamento costal estético

O protocolo desta revisão não foi registrado na plataforma International Prospective Register of Systematic Reviews (PROSPERO), uma vez que se trata de revisão sistemática de caráter descritivo, com síntese narrativa e sem metanálise pré-planejada, não se enquadrando nos critérios prioritários de registro.

Resultados

A busca sistemática resultou em um total de 163 artigos identificados nas 3 bases eletrônicas consultadas: PubMed/MEDLINE (109), LILACS (31) e Cochrane Library (23). Após a remoção de 16 duplicatas, restaram 147 registros únicos para triagem por título e resumo. Dentre esses, 122 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade. Assim, 25 artigos foram avaliados na íntegra, dos quais 14 foram excluídos por motivos diversos, como ausência de dados clínicos, amostra inferior a cinco pacientes ou exclusivo de técnicas reconstrutivas. Ao final do processo, 11 estudos preencheram os critérios de inclusão e compuseram a amostra final da presente revisão sistemática. A síntese dos estudos está apresentada na ►Tabela 2, e o fluxograma PRISMA encontrase na Fig. 1.

A técnica RibXcar (fratura monocortical guiada por ultrassom – USG) foi avaliada em 3 estudos, com amostras de 30, 100 e 220 pacientes. No maior deles (n = 220), observouse redução documentada entre 6 e 11 cm. Foram relatadas 2 queimaduras leves, e a satisfação estética foi alta em todos os estudos 10 a satisfação foi referida, porém não há escala numérica objetiva.10 Um estudo adicional avaliou o marcador intraoperatório clack e demonstrou que apenas a ultras-sonografia confirmou a fratura monocortical (100% dos casos), reforçando a necessidade de imagem em tempo real.11

Fig. 1 - Fluxograma descritivo do processo de seleção dos estudos segundo as diretrizes da declaração Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA).

O estudo de maior amostra (n = 220) apresentou redução mensurável, porém a ausência de grupo controle e a possível associação com outros procedimentos limitam a interpreta-ção isolada do efeito.12 Com proposta semelhante, a técnica de UUAIST, (n = 131), apresentou redução documentada de até 8 cm, com satisfação superior a 97% e registros de 3 assimetrias como eventos pós-operatórios.13

Entre as técnicas estruturais, destacase a RIBOSS (osteotomia com placas), com redução de até 13 cm (maior redução entre os estudos disponíveis). Foi relatado um caso de deiscência leve, porém não há relato de seguimento funcional para estimar impacto.14 Em uma série retrospectiva, UUAIST e RIBOSS foram realizados frequen-temente em associação a high-definition liposculpture (HDL) e outras intervenções, impossibilitando mensurar o efeito isolado.15

Seguindo a linha de intervenções ultrassônicas, a técnica ORUS (n = 120) apresentou redução de medidas em proporções amplas entre o prée o pós-operatório, com duas atelectasia relatadas.16 A fratura greenstick com uso de colete (n = 93) relatou redução documentada em subgrupo de 14 pacientes e 1 caso de não consolidação, sem impacto funcional reportado.17 A Tabela 4 apresenta comparação direta de segurança entre técnicas, demonstrando variação na incidência de eventos: RibXcar (2 casos de queimadura), ORUS (2 atelectasias), UUAIST (3 assimetrias), RIBOSS (1 deiscência), WASP (1 pneumotórax + 1 derrame pleural), fratura greenstick (1 não consolidação).

Tabela 4 - Complicações pós-operatórias
Estudo Técnica N Complicações relatadas n de casos
Cipriani et al.10, 2023 RibXcar guiada por USG 30 2 queimaduras cutâneas leves + dor 2
Cipriani et al.11, 2024 RibXcar (“clack”) 100 NI NI
Donders e Saenz,12 2025 RibXcar sem incisão 220 Sem complicações graves; dor não quantificada NI
Valdivieso et al.13, 2024 UUAIST 131 Dor prolongada + 3 assimetrias de contorno (número de dor não informado) 3
Villa et al.14, 2025 RIBOSS 27 1 deiscência + 1 dor leve 2
Avilez et al.16, 2025 ORUS 120 2 atelectasias sintomáticas 2
Perez et al.15, 2023 UUAIST + RIBOSS NI NI NI
Kudzaev e Kraiushkin,17 2021 Fratura greenstick com colete 93 Nenhuma complicação clínica relatada 0
Hoyos et al.20, 2023 WASP 15 1 pneumotórax + 1 derrame pleural prolongado 2
Verdugo,18 2022 Ressecção costelas 11–12 104 2 pneumotórax intraoperatórios 2
Chiu et al.19, 2023 Ressecção costelas flutuantes 5 Sem complicações; dor leve transitória 0

Abreviaturas:n = número de casos em que a complicação ocorreu. NI = não informado; ORUS, ultrasonic ostemodeling for body contouring; RCQ, razão cintura-quadril; RIBOSS, rib osteotomy with osteosynthesis stabilization; USG, ultrassonografia; UUAIST, ultrasound- and ultrasonic-assisted indentation surgery of the torso; WASP, waistline esthetic slimming by puncture and parallel approach.

Nota: “Sem complicações graves” referese à ausência de pneumotórax, infecção, sangramento, dor crônica persistente ou necessidade de reoperação, conforme critérios de cada estudo.

Tabela 4 - Complicações pós-operatórias

Dando continuidade à linha de cirurgias minimamente invasivas, a técnica WASP (n = 15) reduziu a lateralização do rebordo costal e foi associada a alta satisfação, sem complicações significativas. A técnica de ressecção completa (n = 104) relatou 2 pneumotórax intraoperatórios, sem mensuração objetiva de circunferência, o que limita avaliação de eficácia.18

Com o objetivo de reduzir a RCQ, uma série com 5 pacientes avaliou ressecção estética com redução média documentada de 7,7% na RCQ, porém o tamanho amostral limita interpretação.19

Em síntese, as técnicas apresentaram reduções documentadas variando entre 6 e 13 cm, com maior magnitude reportada em RIBOSS; porém, a ausência de grupo controle, a heterogeneidade metodológica e a falta de avaliação funcional padronizada limitam conclusões definitivas.

Síntese Qualitativa dos Estudos Incluídos

A síntese comparativa evidencia maior redução em RIBOSS (até 13 cm) e menores reduções em técnicas minimamente invasivas (6–8 cm), enquanto o maior número de eventos respiratórios ocorreu em WASP (1 pneumotórax e 1 derrame pleural). A UUAIST apresentou o maior número de assimetrias (três casos). A maioria dos estudos relatou alta satisfação, porém poucos utilizaram instrumentos validados (ex.: Body-Q), e não houve avaliação objetiva funcional em longo prazo.

Classificação geral dos estudos

Dos 11 estudos avaliados, 9 (81,8%) foram classificados como positivos,10–17,20 demonstrando resultados em termos de segurança, viabilidade técnica e satisfação. Dois estudos (18,2%) foram classificados como neutros,18,19 e nenhum negativo, sugerindo um panorama inicialmente favorável para o remodelamento costal estético, embora limitado por fragilidades metodológicas

Segurança e satisfação dos pacientes

Todos os estudos positivos relataram alta segurança, sem registro de complicações graves10,12,20 e apenas eventos leves, como deiscência leve (1 caso),14 atelectasia leve (2 casos)16 e seroma (1 caso).15 Um único caso de não conso-lidação ocorreu na técnica com colete, sem impacto funcional.17 A satisfação dos pacientes foi alta em 100% dos estudos classificados como positivos.

Já entre os estudos classificados como neutros, dois pneumotóraces leves foram descritos18 associados à ressec-ção completa. Um estudo relatou alta satisfação com redução da RCQ.19

Viabilidade técnica e aparência estética

A maior parte dos estudos (n = 9) relatou alta viabilidade técnica, com técnicas descritas como seguras, reprodutíveis ou, fácil execução ou, minimamente invasivas.10–16,19,20 Houve uma exceção, que observou complexidade anatômica elevada na ressecção das costelas (11–12).18

Quanto à aparência estética, todos os estudos positivos relataram reduções objetivas da cintura ou, medidas clínicas e estéticas significativas. Nos estudos neutros, os resultados foram mais variáveis ou subjetivos.

Recuperação e métodos de avaliação

Nos estudos positivos, o tempo de recuperação foi curto e sem intercorrências.10,13,17,20 Dois outros estudos14,16 indi-caram necessidade de acompanhamento mais prolongado devido à implantação de placas ou uso de ultrassom. Na ressecção completa, a melhora foi descrita visualmente em 40 dias, porém sem medidas objetivas.18 A maioria dos trabalhos (n = 6) utilizou avaliação objetiva (circunferência, imagem padronizada).10–16

Qualidade metodológica e lacunas

Sete estudos10–13,16,17 foram avaliados com alta qualidade metodológica, enquanto três14,15,20 foram avaliados como moderados e apenas um,18 foi parcial.

Entre as principais lacunas identificadas, destacam-se a ausência de grupo controle,10,15–17,20 o curto tempo de seguimento (na maioria dos estudos) e a ausência de avalia-ção funcional padronizada.

Os principais desfechos antropométricos de circunferência de cintura e RCQ dos 11 estudos estão sintetizados na Tabela 5. Quando disponíveis, foram extraídas as médias, medidas de dispersão (desvio padrão [DP] ou intervalo interquartílico [IIQ]) e faixas de redução; nos estudos que não apresentaram dados numéricos, isso está indicado como não relatado (NR).

Tabela 5 - Resultados antropométricos (circunferência de cintura)
Estudo (ano) Técnica n Medida antropométrica Valor pré-operatório Valor pós-oper-atório (tempo) Redução Medida de dispersão reportada
Cipriani et al.10, 2023 RibXcar (fratura monocortical guiada por USG, sem incisão) 30 Circunferência de cintura (cm) NR NR Redução de cintura descrita apenas de forma qualitativa, sem médias ou faixas numéricas. NR
Cipriani et al.11, 2024 RibXcar com validação de “clack” (feedback tátil) ~100 Circunferência de cintura (cm) NR NR Redução da cintura e manutenção do “clack”, mas sem valores numéricos completos NR
Donders e Saenz,12 2025 RibXcar + HDL (sem incisão) 220 Circunferência de cintura (cm) Média 77,92 cm pré-operatório Média 66,18 cm aos 6 meses Os autores relatam redução entre 6 e 11 cm na circunferência da cintura aos 6 meses de seguimento Faixa de redução 6–11 cm; não são fornecidos DP, IIQ ou IC para a medida de cintura
Valdivieso et al.13, 2024 UUAIST (corticotomia com piezótomo + HDL) 131 Circunferência de cintura (cm) Mediana 72 cm (IIQ 6 cm) pré-operatório Mediana 65 cm (IIQ 5 cm) aos 3 meses Mediana da redução de 8 cm (IIQ 4,5 cm); subgrupo só remodelagem costal: mediana 7 cm (IIQ 3 cm); subgrupo remodelagem + lipo/associados: mediana 9 cm (IIQ 4 cm) IIQ informado para valores pré, pós e para a diferença (4,5 cm global; 3 cm no grupo 1; 4 cm no grupo 2)
Villa et al.14, 2025 RIBOSS (osteotomia greenstick + placa de titânio) 27 Circunferência de cintura (cm) Média 80,8 cm pré-operatório 68,8 cm em 1 mês; 67,8 cm em 3 meses Redução média de 12,1 cm em 1 mês e 13,0 cm em 3 meses; redução mínima 8 cm e máxima 18 cm Apenas valores médios e faixa (8–18 cm); o artigo não reporta DP, IIQ ou IC específicos para a circunferência de cintura
Avilez et al.16, 2025 ORUS (osteomodelação ultrassônica das costelas) 120 Circunferência da cintura (cm) Mediana préop: 81–83 cm (percentis 10– 90: 70–96 cm)* Mediana aos 90 dias: 65–67 cm Redução documentada: 7–26 cm, com medianas de 13 cm (ORUS) e 15 cm (ORUS + lipo) Percentis 10–90 para valores préop; DP e IIQ não reportados
Perez et al.15, 2023 UUAIST + RIBOSS (série preliminar, resumo de congresso) Não confirmado Circunferência de cintura/RCQ NR NR Redução da cintura até cerca de 12 cm em alguns casos. NR
Kudzaev e Kraiushkin,17 2021 Fratura greenstick das costelas 11–12 + uso de colete 93 (14 com seguimento ≥ 6 meses) Circunferência de cintura (cm) NR em valores agregados; artigo foca no delta NR em valores absolutos; apenas variação Nos 14 pacientes com ≥ 6 meses: redução média de ~ 8,0 cm na circunferência da cintura, com faixa de 4 a 15 cm Média e faixa (4–15 cm); não informa DP, IIQ ou IC para essa variável
Hoyos et al.20, 2023 WASP (remodelamento ósseo minimamente invasivo como complemento à lipo) ~ 15 Principalmente RCQ e avaliação estética visual NR NR Autores relatam melhora estética do contorno e redução do RCQ de forma descritiva; não há tabela com médias ou dispersão numérica detalhada. NR
Verdugo,18 2022 Ressecção das costelas 11–12 associada a lipo/abdominoplastia 104 Circunferência de cintura (cm) NR NR Série retrospectiva com melhora “visível” da cintura descrita no texto; não traz valores médios de circunferência ou RCQ em tabela NR
Chiu et al.19, 2023 Ressecção das costelas flutuantes 11–12 5 RCQ RCQ média 0,78 0,04 pré-operatório RCQ média 0,72 0,06 em 3 meses Redução média de 7,7% na RCQ (variação individual de 4,8–10,9%) DP informado para RCQ ( 0,04 e 0,06) e para a variação percentual (7,7 2,4%); não há circunferência em cm agregada

Abreviaturas: DP, desvio padrão; IC, intervalo de confiança; IIQ, intervalo interquartil; NR, não reportado; ORUS, ultrasonic ostemodeling for body contouring; RCQ, relação cintura-quadril; RIBOSS, rib osteotomy with osteosynthesis stabilization; USG, ultrassonografia; UUAIST, ultrasound- and ultrasonic-assisted indentation surgery of the torso; WASP, waistline esthetic slimming by puncture and parallel approach.

Nota: Valores percentis referemse aos intervalos descritos nos artigos originais.

Tabela 5 - Resultados antropométricos (circunferência de cintura)

Discussão

A presente revisão demonstra que, embora o remodelamento costal estético tenha ganhado espaço como alternativa de definição corporal, a base científica disponível permanece limitada e metodologicamente frágil. Os estudos incluem desenho observacional, majoritariamente séries de casos, ausência de grupo-controle e com amostras pequenas, o que dificulta conclusões definitivas sobre eficácia e segurança em longo prazo (> 12 meses).1,2 A interpretação dos achados é dificultada também pela heterogeneidade entre técnicas—RibXcar, UUAIST, RIBOSS, ORUS, WASP, fratura greenstick e ressecção das costelas flutuantes—com resultados imediatos variáveis e desfechos não padronizados.1,2,21

A eficácia observada se concentra no curto prazo (≤ 6 meses). A redução documentada da circunferência abdominal varia de 6 a 13 cm, sendo a maior redução associada à técnica RIBOSS.21 A RCQ, quando avaliada, apresentou redução média de 7,7%, embora esse desfecho tenha sido mensurado apenas em um dos estudos.1 A ausência de avaliações funcionais objetivas—como espirometria, dor crônica, mobilidade torácica—constitui lacuna crítica, particularmente considerando que outros procedimentos envolvendo manipulação costal apresentam repercussões respiratórias mensuráveis, e que o remodelamento pode envolver osteotomia e ressecção.22–25

A segurança, embora aparentemente aceitável no curto prazo, baseiase em dados fragmentados e de qualidade heterogênea. Os eventos adversos relatados incluem: 2 queimaduras com RibXcar; 3 assimetrias com UUAIST; 1 deiscência em RIBOSS; 2 atelectasias em ORUS; 1 pneumotórax e 1 derrame pleural com WASP; 0 complicações na série defratura greenstick; e 2 pneumotórax intraoperatórios na técnica de ressecção costal 11–12.1,2,21 Em várias publicações, a informa-ção sobre complicações é insuficiente ou ausente, impedindo cálculo de incidência real e comparação de risco-benefício. Com base nas informações extraídas dos estudos, a Tabela 6 resume os eventos adversos registrados para cada técnica.

Tabela 6 - Complicações extraídas dos estudos incluídos
Técnica Complicações relatadas
RibXcar (USG) 2 queimaduras
RibXcar (“clack”) não informado
RibXcar sem incisão ausência de complicações graves reportadas
UUAIST 3 assimetrias, dor prolongada
RIBOSS 1 deiscência, dor leve
ORUS 2 atelectasias
Greenstick com colete 0 complicações; 1 não consolidação sem impacto clínico
WASP 1 pneumotórax, 1 derrame pleural
Ressecção 11–12 2 pneumotórax intraoperatórios
Ressecção flutuantes 0 complicações

Abreviaturas: n = número de casos; NI = não informado; ORUS, ultra-sonic ostemodeling for body contouring; RIBOSS, rib osteotomy with osteosynthesis stabilization; USG, ultrassonografia; UUAIST, ultrasound-and ultrasonic-assisted indentation surgery of the torso; WASP, waistline esthetic slimming by puncture and parallel approach.

Notas: Técnicas listadas - RIBXcar guiada por USG; RIBXcar com “clack”; RIBXcar sem incisão; UUAIST; RIBOSS; ORUS; ; ressecção costal 11–12; ressecção de costelas flutuantes.

Tabela 6 - Complicações extraídas dos estudos incluídos

A ausência de mensuração psicossocial representa outra limitação importante. Embora existam instrumentos validados como o BODY-Q—capaz de mensurar satisfação, autoimagem e impacto na qualidade de vida—nenhum dos estudos incluídos aplicou escala psicométrica estruturada para avaliar benefício psicológico real em pacientes saudáveis submetidos a remodelamento costal estético.26 Assim, não é possível afirmar se os resultados estéticos percebidos correspondem a melhora emocional ou apenas à resposta a expectativas sociais.

No campo bioético, o remodelamento costal se encontra no grupo de procedimentos irreversíveis potencialmente realizados em indivíduos saudáveis. A literatura sobre ética em cirurgia estética alerta que a autonomia pode ser vulne-rável, modulada por fatores socioculturais, especialmente em procedimentos que envolvem modificação corporal para atender a ideais estéticos.27–29 Ao mesmo tempo, não exis tem diretrizes formais—nem nacionais, nem internacionais—para regular indicações, técnica ou seguimento, gerando uma zona cinzenta que transfere ao cirurgião o ônus exclusivo do julgamento clínico e da proteção do paciente.27–29

Sob a perspectiva brasileira, a cirurgia plástica ocupa papel de protagonismo internacional, inclusive como destino para turismo médico.30 Entretanto, a ausência de normati-zação do procedimento por parte do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) abre espaço para sua realização fora de ambiente habilitado, o que pode ampliar risco de complicações e comprometer a reputação institucional da especialidade.31 Os textos sugerem, ainda, que o Brasil tem oportunidade estratégica para liderar a criação das primeiras diretrizes ético-técnicas globais para remodelamento costal estético, padronizando indicação, qualificação profissional e segurança perioperatória.30,31

Em síntese, o remodelamento costal demonstra benefício estético imediato, porém sustentado por evidência científica frágil, com ausência de seguimento funcional, inexistência de avaliação psicossocial, pouca padronização de técnica e lacuna regulatória integral. O avanço do campo depende da realização de estudos prospectivos, avaliação objetiva funcional, uso de instrumentos psicométricos, construção de registro multicêntrico e definição ética e normativa—idealmente lideradas pela cirurgia plástica brasileira.

Conclusão

As técnicas de remodelamento costal estético disponíveis demonstram resultados satisfatórios em curto prazo, com redução objetiva da circunferência e alta satisfação dos pacientes; contudo, a ausência de estudos controlados, de avaliação funcional padronizada e de seguimento prolongado impede conclusões definitivas sobre segurança, durabilidade e indicações ideais do procedimento.

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1. Departamento de Cirurgia Plástica, Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE), Recife, PE, Brasil
2. Departamento de Cirurgia Plástica, Hospital Geral de Vila Penteado Dr. José Pangella, São Paulo, SP, Brasil
3. University of Toronto, Toronto, ON, Canada
4. Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Recife, PE, Brasil

Disponibilidade dos Dados

Os dados serão disponibilizados mediante solicitação à autora correspondente.

Suporte Financeiro

As autoras declaram que não receberam suporte finan-ceiro de agências dos setores público, privado ou sem fins lucrativos para a realização deste estudo.

Endereço para correspondência Leonaldo Torres Diniz, Avenida Professor Moraes Rego 1.235, Cidade Universitária, Várzea, Recife, PE, 50670–420, Brasil (e-mail: leonaldotd@gmail.com).

Artigo submetido: 16/08/2025.
Artigo aceito: 13/01/2026.

Conflito de Interesses

Os autores não têm conflito de interesses a declarar.

Editor-chefe: Dov Charles Goldenberg.